O que é essa esquerda brasileira?

Escrito por Mariana Cabeça e Marcelle Rodrigues

Eu já não fico mais decepcionada com manifestações como a foto que o presidenciável de esquerda publicou em suas redes no começo de abril: entre os 19 participantes, 17 homens e 2 mulheres. Todos brancos. Todos cisgênero. Não menos importante, ao lado de Geraldo Alckmin, conhecido e denunciado internacionalmente pela ação violenta da Polícia Militar, ataque aos estudantes, que não dialoga com movimentos populares e é o senhor das privatizações. Um legítimo repressor, que não está comprometido com os interesses do povo. 

Essa cisão entre o que se diz e o que se faz na esquerda brasileira… Também chamada de “branquitude progressista”. A mais perigosa, por ter o discurso pronto e se fazer de sonsa em horas como essa, onde a fala realmente conta. Não vou entrar no mérito de estarmos ansiosos para nomear esse lugar que nos foi obrigado (por movimentos negros e indígenas) a aceitar que existe: o de nos responsabilizarmos por quem somos. A gente nem queria entrar nesse ônibus e como sempre quer sentar na janelinha.

Mas… é se fazer de sonsa ou é um projeto político muito bem articulado? Me parece que diminuir a capacidade cognitiva das pessoas também alivia de alguma forma o nível de cobrança que se é necessário ter a respeito da realidade.

A ingenuidade é uma característica marcante nas estruturas neuróticas. A gente simplesmente nega o fato importante, não quer olhar para ele, mas, com isso, passamos a ignorar também várias outras coisas na nossa vida. Trata-se da cegueira neurótica, não sem ganho, pois olhar para aquilo que se quer evitar, diz respeito a não reconhecer em si algo que não lhe é familiar. Isso pode assustar quem tem uma visão pura, civilizada, suficiente e racional de si. Quase como um colonizador.

Durante meus últimos anos de faculdade, recentemente, em 2018 e 2019, estive dentro de projetos com bases firmes na “liberdade, igualdade, fraternidade”. Sim, eles seguiam isso. Com algumas condições: desde que as pessoas vulnerabilizadas socialmente não se tornassem livres das assessorias prestadas, desde que as hierarquias entre as pessoas não fossem radicalmente questionadas, desde que a fraternidade fosse até o agradecimento pela bondade daqueles que historicamente foram privilegiados para estarem no lugar de “salvadores”.

Durante meus últimos anos trabalhando como RH, faz 2 anos que saí para me dedicar somente à clínica, as políticas de diversidade estavam a todo vapor, só se falava nisso: “precisamos incluir negros, negras e a população LGBTQIA+”. No entanto, as práticas adotadas em nada ajudavam em uma mudança estrutural. O esforço tinha um limite claro: as vagas de estágio e trainee. Sem poder e autonomia ou decisão sobre o que realmente importa quando estamos falando de mercado de trabalho. Mas isso dobra o efeito esperado: rende bons comentários vindo dos clientes e é capa dos principais meios de comunicação, o que garante às empresas sua impecável imagem preservada. Isso definitivamente não é querer reparar o déficit provocado pela desigualdade. Como costuram os compositores Carica e Pratedo, é tanta gente de bem que só tem mal pra dar. 

São as mesmas pessoas que defendem, sem nenhum espaço para crítica, a eleição de todas as pessoas que compõem essa foto do “Brasil que queremos” [1]. Continuar em lugares onde podem decidir quem, quando e como se acessa o que já temos garantido desde o início dessa ficção distópica, que nossos antepassados criaram, chamada “Brasil”. 

Desde que os não brancos estejam em lugares subalternizados, é confortável clamar por justiça social, equidade racial e de gênero. Fazer um pedido, rezar pro santo, amarrar fitinhas no corpo e levantar as mãos para o céu não garantem que nada aconteça. A menos por interseção de um milagre. Será que é isso que estamos esperando? Um milagre que vá nos tirar a responsabilidade de centenas de anos de exploração e privilégios adquiridos através disso?

Reconhecer as garantias de direitos não é ficar calado. Portanto, isso não significa anular os avanços sociais públicos que tivemos nos governos do PT: aumento exponencial de acessos à faculdade, o programa Ciência sem Fronteiras, acesso à dignidade através do Bolsa Família, aumento do salário mínimo, o país se viu fora do mapa da fome etc. Mas isso não é suficiente para não se submeter às práticas liberais que interessam exclusivamente a elite brasileira, precisamos de uma esquerda que não tenha medo de dizer o seu nome – como marca bem Safatle [2]. 

Eu lembro até hoje o impacto da frase do Ailton Krenak, em 2018, no meu desespero por estarmos elegendo Bolsonaro “olha, vocês brancos eu não sei o que vão fazer, nós já estamos resistindo há 500 anos nesse território”. E, realmente, as pessoas brancas de esquerda ao meu redor naquele momento estavam em desespero. Eu também. O desespero de nunca termos tido nosso conforto radicalmente confrontado e ameaçado. É essa uma das diferenças fundamentais entre ser branco ou não ser em uma sociedade racista. O conforto de estarmos longe quando o pior se apresentar.

A esquerda brasileira pode ser um serviço muito bem elaborado prestado à supremacia branca. E quanto maior a reação de ofensa ou, quando não “e”, negação, mais espaço ela ganha para enraizar essa realidade. “Jogar a carta do silêncio diante de problemas que não soubemos como resolver sempre foi o caminho mais seguro para o fracasso (…) Agora não é hora de medo. Agora é hora de luta”. 

[1] Foto que Fernando Haddad postou em seu Instagram, onde todos os cadidatos eram pessoas brancas cisgênero.

 [2] Trechos do mais novo livro de Vladimir Safatle: Só mais um esforço: Como chegamos até aqui ou como o país dos “pactos”, das “conciliações”, das “frentes amplas” produziu seu próprio colapso

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