O desconforto da palavra

Escrito por Marcelle Rodrigues 

Ligo a TV. Reporteres brancos comentam o assassinato de um homem negro, evidenciam o racismo e menos de 5 minutos depois, quando os fatos são expostos e comentários óbvios cessam, o assunto toma um rumo que me chama atenção. O tema racismo foi sustentado por um curto período de tempo e agora um deles conta a história de como trabalhadores autônomos começaram a vender espeto de churrasco em carrocinhas no início dos anos 70, numa área erma da cidade carioca. Uma das repórteres questiona a veracidade daquilo fora de contexto – parece ter ficado confusa de como o assunto foi parar naquele ponto.

Nos acostumamos a ver pessoas negras participando da roda quando o assunto é racismo e quando isso não acontece os desafios são grandes, posto que é mais fácil chamar trabalhadores vulneráveis de “empreendedores” do que apontar para exploração e o aumento de péssimas condições de trabalho com o passar dos anos. Depois do estranhamento, me questiono sobre o que aquilo significa. Que imagens estamos reproduzindo? Por que esse tema é tão desconfortável para gente branca? 

Nem todos os predicados imagináveis são capazes de dar conta do sujeito, de fato, as categorias nos ajudam na organização do mundo e são práticas no dia a dia, mas nunca suficientes quando nos referimos a subjetividade. Freud se dá conta disso através da escuta singular de cada paciente durante o trabalho com a psicanálise – tratamento que surge no limite da medicina, lá onde essa fracassou. Lacan, que subverteu a lógica linguística de Saussure, colocou o significante em outra posição – com muito mais destaque – e assim, se constrói a diferença entre um lugar subjetivo e outro.

Quando nós, pessoas brancas, atuamos para limitar o espaço através de convites e aparições públicas, também estamos dizendo qual território determinada pessoa pode ocupar. As pessoas negras frequentemente chamam atenção para isso, denunciando que são sempre convidadas para falar sobre os mesmos temas e certas datas no calendário são sempre motivos específicos para lotar sua agenda. Mesmo sem estudo especializado a respeito do tema, o importante é esconder a fragilidade de quem não faz um uso adequado do vocabulário racial. 

Além disso, como a Chimamanda desenvolve no livro de bolso “o perigo de uma história única”, acabamos por ignorar a maior parte da vida daquela pessoa. Afinal, o que aquela pessoa gostaria de compartilhar? Quem é ela nas suas próprias palavras? Será que isso nos interessa? Me parece que estamos ecoando um padrão colonial, portanto, não perdemos o hábito de criar demandas para o “outro”. Pedindo coisas, delegando funções e sendo dono da terra sem fazer o mínimo esforço para cultivá-la. Fazendo do outro objeto do nosso desejo. Como poder olhar diferente para o futuro se não aprendemos a agir de outra maneira? O letramento racial é responsabilidade das pessoas brancas e a trava na hora de falar deveria ser razão suficiente para buscar conhecimento. 

Winnie Bueno, no seu livro “imagens de controle”, alerta para o duplo aspecto que pode conter numa imagem aparentemente positiva e como isso pode limitar a vida de alguém na sua forma material. O espaço conquistado dentro de  programas de televisão renomados e nos meios de comunicação em geral é importante para quebrar conceitos tidos como norma neutra, mas que tem cor. No entanto, esses espaços são sempre acessados sob determinadas condições e servem de alimento para construção imaginária que habita o senso comum.

Não à toa as pessoas negras são fixadas como conhecedoras do tema racismo – além de ser conveniente para nossa falta de implicação – as pessoas brancas se valem do rótulo de expert para fixar um lugar pro “outro”, local esse que se limita ao tema em jogo e reduz significativamente as possibilidades de narrativa. Dito de outra maneira, os demais espaços continuam livres para as disputas entre brancos. O quanto realmente queremos a diversidade ou apenas ver padrões que nos beneficiam?

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