A TOLERÂNCIA AO RACISMO NO PARAÍSO RACIAL

Escrito por Euvaldo Barros

Essa semana o flow podcast, um dos maiores do país em alcance e número de episódios, publicou o seu episódio 547 onde trazia como convidados Tábata Amaral e Kim Kataguiri, de fato os convidados não foram a parte mais marcante do episódio, mas sim o evento que se desenrolou a partir dele. Monark, um dos apresentadores do programa, já vinha por diversas vezes fazendo declarações polêmicas a partir de uma ideologia exacerbada de liberdade. Não é de hoje que Monark explicita que a liberdade que ele defende não considera limites e não considera o outro, a verdade é que essa defesa intransigente de uma liberdade de ferir é marca maior da branquitude, sobretudo a heterossexual, masculina e de classe alta, mas poucas são as vezes que alguém a verbaliza de forma tão nítida e com tamanha certeza da impunidade.

Monark, após horas de conversas, proferiu declarações de defesa da existência de um partido nazista organizado e reconhecido por lei, bem como a defesa do “direito” de ser anti-judeu. Apesar de que no programa o clima se manteve amistoso entre os participantes, inclusive tendo fala semelhante do convidado Kim Kataguiri, o público ficou indignado diante de tamanha insensibilidade em relação ao nazismo e ao holocausto. Monark dessa vez se viu em uma situação diferente, se viu tendo que pedir desculpas, foi desligado do podcast no qual é um dos donos/sócios e ocupou os assuntos mais comentados do país com críticas ferrenhas e indignadas.

Bom, Monark já defendeu o seu “direito” de se orientar por pensamentos racistas, e há quem se surpreenda por vê-lo estender sua “liberdade de expressão” ao nazismo. A verdade é que ambas as situações são criminosas, mas quando o alvo envolve pessoas de pele branca a atenção é maior.

Estou escrevendo isso pra refletirmos, tenho origens judaicas e sei como dói em mim pensar nas crueldades do passado, mas aqui, hoje, em Brasil, muitos de nós, descendentes de judeus e judeus, somos lidos como brancos e a partir disto somos beneficiados por essa posição material e simbolicamente. Foi preciso que esse rapaz, com o alcance gigante que tem, atacasse a brancos (inclusive em seu pedido de desculpas) para que boa parte das pessoas compreendesse a gravidade de uma pessoa como ele ter o alcance que tem.

A tolerância ao racismo de canais como o flow e outras figuras de influência digital pode ser percebida a partir das consequências que um ato racista contra negros pode gerar para essas marcas. Quando Monark defendeu o “direito” de ter pensamentos racistas, por pressão do público, alguns patrocinadores repudiaram a fala e romperam com a relação de patrocínio. O vídeo em que isso é dito continuou no ar e tratado apenas como um erro de um jovem ávido pela liberdade de expressão. Agora, nessa nova situação, contratos foram cancelados, parcerias desfeitas, Monark demitido de sua própria empresa se vendo obrigado a vender a sua parte, vários dos convidados do programa solicitando que suas participações fossem retiradas do ar e o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro determinando que o Flow deletasse as falas nazistas de suas redes em 48 horas sob pena de 10 mil reais por cada veiculação. Essa discrepância das consequências só nos diz uma coisa, o brasileiro tem alta tolerância ao racismo anti-negro e tem resistência a tratar o racismo como o crime que é.

No fim das contas se tratassemos desse assunto de forma séria e engajada, não precisariamos estar lutando pra evitar a veiculação de um discurso nazista, uma vez que, no primeiro caso de racismo, o flow, Monark ou qualquer outro teriam sofrido as consequências conforme o crime que cometeram.

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