Verão, praia e Branquitude

Escrito por Marcelle Rodrigues

Janeiro se aproxima do fim e já podemos fazer jus a fama de Rio 40 graus, na semana passada, batemos esse pico nos termômetros e a sensação térmica foi nada menos que 48 graus!! Então a única coisa que a gente pensa é: – po cara, queria estar na praia. O carioca aguarda ansiosamente pelo final de semana para ver seu sonho se concretizar.

Antes de colocar o despertador para tocar, separar a roupa e tomar aquele café da manhã reforçado, digno de quem vai preparado para passar o dia inteiro na praia, uma pergunta importante: para qual posto vamos? o adjetivo aqui colocado não é à toa. Para responder essa pergunta alguns critérios precisam ser cumpridos, vamos a eles: não pode ter “farofeiro”, deve ficar longe da galera que não sabe se comportar na praia, não ter música de má qualidade… especialmente, não desembocar de estações de metrô e ser ponto final de ônibus.

Quando eu pensava em lugar democrático no Rio de Janeiro, a praia com certeza estava no top 3, afinal, mais de uma opção de deslocamento, custo baixo e tem gente de todos os tipos. Tem mesmo gente de todos os tipos, mas cada um no seu posto onde as fronteiras ainda que invisíveis se colocam reforçando esteriótipos e impedindo a circulação daqueles outros. Impelidos pelo olhar, inexistência de reconhecimento e falas preconceituosas entendem que não pertencem, apesar da cordialidade dos sorrisos colgate.

As saídas para uma pergunta simples, mas que se torna complicada de responder vão de, “no Leblon é mais família” até a clássica que acaba com qualquer argumento, “eu prefiro”. Podemos nos questionar que cor de família é essa a qual nos referimos e ir adiante, será que a vontade não seria estar num ambiente confortável onde as pessoas são conhecidas? Os nossos gostos são moldados pela cultura que vivemos, ninguém nasce com um certo tipo (bem específico) de go(z)to. Parece que a cultura do povo negro cai muito bem quando é para consumo e feitiche, pois é maneiro ir na roda de samba, postar a favela nos stories, ir dançar funk no morro, ficar alguns minutos fazendo caridade e ilustrando o vidro sustentado pela moral e bons costumes, mas não passa disso, feito de bases muito frágeis, escorrem entre os dedos feito areia. Feita para os olhos de quem quer enxergar, é uma fronteira tênue, mas também brilhante como um raio sol.

O público e o privado podem repetir os mesmos padrões, ainda que digam que no público os brancos se comportem frente ao racismo, penso que talvez ele só ganhe outra roupagem, uma mais sutil feita para os olhares mais atentos às contradições, pois danos psicológicos não deixam marcas no corpo ou não são possíveis capturar em vídeo, mas o estrago está feito e traz consequências para as pessoas negras.

Vladimir Safatle escreve, “todo reconhecimento exige que aquele que reconhece mude também, porque ele vai habitar o mundo com corpos que antes não o afetava.”, as pessoas brancas não estão prontas para saber a verdade, pois isso implica em se deparar com sua própria estupidez, autoengano e desconstrução de fantasias tais como a que citei acima, do ser neutro, abrir mão dos privilégios materiais e deixar de simbolizar esse ser guiado sob a luz da razão. Esse pode ser um passo insuportável, mas me pergunto até que ponto é passível de escolha, pois também é um passo de responsabilidade. Se negar a ele significa viver na bolha da estupidez e entre as demarcações dos postos do Leblon – cada vez mais espremido. Para expandir, quebras serão necessárias, se há de começar por algum lugar, que a gente comece no verão aproveitando a praia de maneira diferente.

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