A falácia do racismo reverso ganha espaço no ano em que se discute a lei de cotas

Escrito por Geísa Mattos

Um texto cheio de equívocos e distorções de um tal risério, publicado neste mês na Folha de S. Paulo, não mereceria sequer uma mínima dedicação de nossa preciosa energia. Seu artigo seria talvez risível, se não tivesse tido o aval, para sua publicação, de um jornal que já foi respeitado no Brasil, e o apoio de grupos hegemônicos brancos que têm interesse em brecar os avanços proporcionados pela lei de cotas, especialmente ao verem crescer a formação de uma intelectualidade negra cada vez mais atuante no País.

Comecemos por explicar a este risério e a outros que pensam como ele o que é uma estrutura social racista. Obviamente, ter que “explicar” a um “intelectual” e à direção de um jornal o que já deveria fazer parte do letramento racial de todo brasileiro desde a infância, pode parecer desnecessário, mas infelizmente precisamos ser didáticos.

Como explica Eduardo Bonilla-Silva em Racism without Racists (ed. Rowman & Littlefield Publishers, 2014) uma estrutura social racista compreende a totalidade de relações sociais e práticas que reforçam o privilégio da Branquitude. Veja-se que o conceito não permite que se confunda: o fato de certos grupos sociais eventualmente serem confrontados em seus racismos e mesmo serem alvo da raiva de pessoas negras, não faz com que estes percam os seus privilégios nesta estrutura social. 

Uma das formas de se perpetuar a estrutura racista é justamente tentar inverter os polos, com brancos e brancas colocando-se na posição de vítimas, quando na realidade são favorecidos de numerosas formas por esta mesma estrutura. 

Reações deste tipo, apesar de antigas, não deixam de causar espanto, logo agora, quando explodem os casos de violência contra negros e negras flagrados por câmeras de celulares e de segurança, quando temos estatísticas mostrando que o rendimento médio mensal de pessoas brancas é 73% maior do que o de negros no Brasil (IBGE, 2019) e que negros são 75% das vítimas de violência policial (Fórum Brasileiro de Segurança Publica, 2021).

Portanto, risério, não se pode falar em racismo reverso porque nós pessoas brancas continuamos sendo privilegiadas socialmente, mesmo que sejamos confrontadas por negros e negras a assumirmos nossas responsabilidades e cumplicidades com essa mesma estrutura racial.

Isso produz incômodo, claro, e por isso os brancos mais incomodados, como risério, criam logo um nome feio para xingar quem os confronta: o “identitarismo”. Mas a Branquitude vai continuar sendo confrontada mesmo, risério.  Porque aferrada à sua zona de conforto desde os tempos coloniais, não vai abrir mão dela assim sem estrebuchar como você o fez. 

Seria meramente risível se não fosse trágico que ainda tenhamos que ficar repetindo o óbvio. E se eu que sou branca, estou cansada, o que dirão os negros e negras que estão nesta luta há tanto tempo. 

Em nota[1] do Comitê de Antropólogas/os Negras/os, da ABPN (Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) e da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a resposta veio explícita: é preciso “resistência ao pacto de mediocridade celebrado entre opositores(as) da luta antirracista e organizações representativas do que há de mais nocivo e perpetuador de desigualdades raciais na sociedade brasileira”.

[1] Para ler a íntegra da nota mencionada: http://www.portal.abant.org.br/2022/01/20/a-quem-serve-o-racismo-reverso/

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