Notas mentais

Texto de Davi Akintolá

Honestamente eu não iria começar esse texto dessa forma. Respirei fundo e lembrei das palavras de Chimamanda que alertava sobre a raiva não ser uma boa companheira no momento da escrita. Confesso que ainda tenho muitas dúvidas em relação a isso, mas dessa vez vou tentar seguir o conselho. Alguns dias atrás, ouvi o podcast da Morena Mariah (inclusive, achei o bordão dela irreverente, Maria com h no final) que falava a respeito do poder das ficções sociais. De maneira geral, mesmo que não teorizemos sobre o assunto na vida cotidiana, sabemos  o que elas são capazes de produzir. 

O ano era 2002, me lembro de estar ansioso para ver o novo filme estrelado por Tom Cruise, Minority Report. Eu sempre fui um grande fã de ficção científica, mas nem de longe eu pensava em fazer essas reflexões que faço agora há vinte anos (eu tinha uns 14 mais ou menos). A pouco tempo lembrava de como era impensável naquele ano sequer cogitar o tipo de tecnologia que as personagens usavam, telefones que permitiam fazer chamadas de vídeo e touch screen, algo que hoje não causa nenhum espanto de tão corriqueiro. Caso não tenha ficado explícito, esse é o poder de uma ficção social, qual seja, nos colocar em movimento para criar coisas que até então não existem. Como nem tudo são só flores, prestemos atenção aos “pequenos” detalhes, que nesse caso fazem toda a diferença. Poderíamos bater na tecla gasta, de tão acionada, da sub-representatividade de pessoas negras nos filmes (especialmente nos de ficção científica). Mas existem outros pontos que acendem um alerta. Na visão de futuro do filme (que se passa em 2054, ou seja, daqui a 32 anos) se criará todo um aparato tecnológico de reconhecimento facial do futuro criminoso, (algo já soa familiar?) que seria preso preventivamente. Vigiar e punir com rigor, esse é o plano de futuro (ou projeto civilizacional) que a branquitude projeta. E sabemos quais serão seus públicos-alvos. Quando vemos as notícias sobre reconhecimento facial, seus usos e propostas de controle, percebemos que “o futuro é agora” e esse agora foi projetado, arquitetado e construído a partir dos desejos (e delírios) de um povo.  

Como mostrei anteriormente, não apenas os filmes, como também as novelas e as peças de teatro, têm o poder de mexer com nossos desejos e sentimentos. Por exemplo, choramos, sorrimos, agarramos ódio por uma personagem, acolhemos outras, sentimos medo e por aí vai. O simples processo de ser “telespectador” informa como “o que não é real” têm o poder de transformar realidades. Aliás, algo que me ocorreu agora no momento em que escrevo, foi perceber que o racismo antinegro é uma dessas ficções sociais que partem do corpo e agem no corpo. O curioso é que, apesar do processo de hierarquização racial ter efeitos bastante concretos no cotidiano – acredito que os exemplos são absolutamente desnecessários -, uma de suas estratégias para sobrevivência consiste exatamente em transformar a realidade em irrealidade. Recapitulando, para que fique nítido o ardil da situação: O racismo antinegro é uma ficção que orienta, organiza e produz realidade, porém, essa última é mascarada de tal forma que passa a virar ilusão. Seria cômico se não fosse trágico. Não à toa, apesar dos dados oficiais, elaborados pelos órgãos de pesquisa mais sérios do Brasil apontarem para um quadro de disparidade entre a população negra e a branca, ainda há quem duvide do ódio estrutural da branquitude. Nessas horas, lembro de uma frase dos racionais que diz “o barato é louco e o processo é lento”.

E o processo de mudança de uma ficção social é tão lento, que só agora o Brasil está começando a se constranger enquanto nação, por ter uma liderança empresarial toda branca. Vale dizer, uma mudança gerada muito mais pela culpa, esta promovida por uma pedagogia do constrangimento que a negritude promove desde que pisamos nesse território, do que pelo verdadeiro desejo de reparação, responsabilização e reestruturação em direção a uma outra possibilidade de futuro. Djonga não poderia ser mais certeiro quando disse “Cêis mora tipo em Wakanda, mas finge que é Escandinávia”. O fingimento… 

Abrindo um parênteses, ao contrário da crença de que o futebol ou o carnaval definam este país, talvez, e o momento histórico atual parece endossar a minha hipótese, seja o fingimento uma das principais marcas nacionais. E fazemos isso a tanto tempo que muitas vezes acreditamos (ou fingimos acreditar). Desde a invasão disfarçada de descobrimento, passando pela libertação da escravatura, que sabemos não só não libertou ninguém, como tão pouco foi uma atitude de benevolência, a branquitude finge ser solidária mas move mundos e fundos para manter sua existência parasitária. Nesse ponto acredito que o exemplo da mitologia pode nos auxiliar. Diferente do movimento de Lourenço Cardoso que promove um importante questionamento sobre o reflexo, quando aponta que a branquitude é vampírica, eu estou mais interessado no fator nutricional. A marca registrada dessa figura mítica é justamente beber o sangue de sua vítima, que dentro dessa metáfora seria a energia vital. E como este país nos drena com um apetite voraz para manter de pé sua extravagante realidade. O processo de vampirização não se sustenta por si, pelo contrário, para manter uma jovialidade (que bem sabemos ser artificial), consome tudo ao seu redor. Porém, diferente da crença de uma passividade referente às populações negras, nós também desenvolvemos a capacidade do fingimento.Um exemplo dessa estratégia, como nos conta Wanderson Flor, é a dupla verdade dos terreiros, que para se proteger de possíveis predadores cria a verdade da porta pra fora (revelada aos olhares curiosos) e a verdade da porta pra dentro (que só revela o segredo para quem é digno de conhecê-lo). Aliás, essa também me parece ser uma estratégia muito utilizada, por nós, no ambiente corporativo.

 Mas voltemos para as trilhas anteriores. Parece que nesse momento estamos vivendo na década da diversidade. Ao abrirmos o linkedin, podemos perceber que “todas” as empresas são diversas, o curioso é a quase ausência de transparência desses números. A traquinagem não para por aí, as meia dúzia de gatos pingados que se dispõem a apresentar seus dados, o fazem de maneira a dissimular seus pactos narcísicos. Ao divulgarem, por exemplo, a categoria mulheres, “se esquecem”, um esquecimento pra lá de estratégico, de assumirem que são sempre as brancas e cis. Ou seja, qual a probabilidade de serem as netas das bruxas? Se tivesse que dar um palpite, diria que está mais provável de serem as bisnetas e netas dos colonialistas das casas grandes que receberam o bastão familiar de seus bisavôs, avôs, pais e tios para darem sequência ao acúmulo de patrimônio familiar. 

O ponto é que a branquitude criou uma autoimagem de si mesma como uma comunidade diversa. Baldwin, um autor que sempre me dá conselhos geniais, disse “(…) trair uma crença não é a mesma coisa que deixar de acreditar nela.” [1] Por mais que em algumas empresas venham-se aumentando o número de pessoas não brancas, isso a passos milimétricos, falta a mudança de mindset. A cada passo, essa liderança “generosa” (entende-se culpada), não sustenta o walk the talk. O que parece ser visível (para não dizer risível) é que a mediocridade corporativa não se sustenta em um único idioma, mas precisa de dois para contar suas falácias, afinal, o inglês “expressa melhor a complexidade da situação”. Sempre quando questionada, pressionada a apresentar planos, datas e prazos, a resposta é ensaiada: “estamos planejando e no futuro apresentaremos nossos resultados”. O plano de reestruturação é sempre futuro. Cuti cantou uma letra incrível dizendo que o racismo tem método. Lembrei, ao ler algumas das justificativas sobre os resultados pífios (porém comemorados como se fossem grandes feitos) de diversidade, do período de decisão ou não da abolição da escravatura. A base argumentativa é exatamente a mesma, ou seja, a casa grande com suas discussões tão acaloradas quanto cretinas, optando sempre por um processo gradual de “liberdade”/”inclusão” e sendo fartamente recompensada por isso. O que é sempre jogado para o fundo nessa discussão (ou seja, tornada em ficção), é justamente o papel ativo da negritude em corromper essa ciranda.

 Por fim, parece que o poder das ficções sociais está relacionado não apenas na capacidade projetiva em si, mas principalmente servir de leme que nos direciona para algum lugar. Por hora, concordo com o poeta quando diz que “o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.”[2]

[1] Notas de um filho nativo de James Baldwin

[2] Poema de Carlos Drumond Andrade a flor e a náusea

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