Uma lista de um início de calendário que precisa acabar

Sempre fiquei intrigada com listas de início de ano. Gosto muito do ritual de comemoração do fim dando boas vindas ao início. Eu acredito que o dia 31 do calendário gregoriano corresponde a isso: a celebrar fins.

2022, então. Ali na esquina temos 705 mil homens brancos (aposto que em sua esmagadora maioria cis, heterossexuais, de família cristã) que concentram a renda de 33 milhões de mulheres negras [1]. Ao lado, mais da metade dos cargos de “diversidade” são ocupados por mulheres brancas (faço a mesma aposta anterior) [2]. Mais uns passos a frente (ou pra trás, já que linearidade é uma invenção) e descobre-se que os portugueses não só erraram a rota para as Índias e sem querer (não “querendo”, sem querer mesmo) vieram parar podres, quase mortos, na costa desse território – e foram salvos pelos povos originários [3]. E aí, para atravessar essa rua, você descobre que um dos inícios desse caminho é sobre os reinados africanos já terem atravessado esse oceano milhares de anos antes dos portugueses. Por querer, querendo. Só que não havia interesse em dominar territórios em que eles não viviam. Só em ensinar o que se sabia, aprender, trocar. [4]. 

Se os itens 3 e 4, principalmente, parecem impossíveis, provavelmente dialogo com um imaginário nutrido apenas pela monocultura [5] da colonialidade. E como em diálogos as pessoas trocam, não batalham até o que parece ser o cancelamento intelectual de alguém para saber quem está certe ou errade, vamos compartilhar um exercício de troca de pensamentos? Onde você aprendeu sobre a história do lugar em que você e os seus vivem? Quais as fontes? Buscou outras? Se não, porque não? Questionar o seu conhecido te incomoda? Se sim, por que será?

Agora vou te contar um pouco sobre minha própria trajetória de pensamentos. Afinal, estamos trocando. Quando comecei a estudar, muito tardiamente e convidada por quem não partia dos mesmos pontos que eu para tal, sobre o exercício que estou propondo, sentia desde indignação à incredulidade. Como assim tudo o que eu havia aprendido era uma mentira? Como assim essa mentira era contada por semelhantes que eu aprendi a admirar? Como assim ela, a mentira, me beneficiava? Como assim eu sentia que estava sendo atacada ao ser convidada a pensar sobre isso? 

Imaginários nutridos pela monocultura da colonialidade têm essa tendência de serem extremamente bélicos. Sabe? Postura de guerra. O que faz sentido quando pensamos que é necessário incendiar uma história milenar para dizer que ela foi inventada por um povo jovem, como os greco-romanos fizeram com a biblioteca de Alexandria (que fica no Egito, e o Egito fica na África, e as pessoas de lá são negras, e a “civilização” vem de lá – mas vamos por partes, já que a escrita é, de certa forma, linear). [6]. Por exemplo, ficar ofendida com um texto de alguém que nunca vi na vida e nunca verei, que o que está sendo dito não afeta minha vida cotidiana e que, principalmente talvez, não é sobre mim individualmente e nem sobre (apenas) o “aqui e agora” é a atualização da vontade de queimar uma biblioteca para manter uma mentira. 

E aí, porque estou longe de ser a primeira a falar sobre tudo isso e também porque aprendi que é necessário sonhar com possibilidades saudáveis, gostaria de compartilhar com você a minha lista de desejos para 2022. Pontos que eu gostaria que fossem naturalizados serem discutidos em qualquer lugar, e aqui falo dos meus lugares, que a depender de quem me lê também são seus: bastante embranquecidos e cristãos. 

Desejo 1) Focar o papo dos encontros familiares e de amizades no absurdo que é não sabermos até então que toda a filosofia grega é uma invenção e que na realidade quem estudava, pensava e ensinava isso eram os povos africanos. 

Desejo 2) Tirar sarro dos “gregos da vida” que tiveram que ir até o Egito aprender o que eles nem sabiam que existia e toparam fingir que foram eles que inventaram [7], no fim das contas. E, enquanto tiramos um sarro, pensar de quais formas ser tão contra os livros de história (e de matemática, filosofia, etc. afinal, o teorema nem é de Pitágoras, a ética nem é Aristotélica e, pasme, a democracia não é grega) que eles precisariam ser reescritos.

Desejo 3) Pensar em formas de chegar junto do pessoal, por exemplo, das agropermaculturas e trocar uma boa ideia sobre esse saber ser dos povos indígenas. Pensar em formas de inverter a lógica de tutela de lugares que propõe autonomia para os tutelados e permanecem com as mesmas pessoas, nos mesmos lugares, buscando formas diferentes de auto-admirar os mesmos discursos.

Desejo 4) Fazer uns grupos de táticas e estratégias para conversar com os tiozões e as tiazonas (toda família tem, gente) que defendem os imigrantes que chegaram aqui nos últimos 150, 100 anos e alcançaram a classe média, média alta ou até a classe alta em menos de 3 gerações para dizer que os “outros” que não trabalharam o suficiente. Contar para eles e elas que esse pessoal foi convidado a vir, recebeu benefício para estar e segue recebendo até hoje – quem sabe fazer um documento mostrando todas as leis que beneficiaram essas pessoas?

Desejo 5) Ainda no desejo 4, contar sobre as pessoas que estavam aqui antes dos portugueses, holandeses e espanhois. Os povos que, como dito anteriormente, impediram a morte dos portugueses perdidassos-no-personagem “chegar as especiarias da Índia”. Contar sobre o maior holocausto que já existiu (e segue existindo na humanidade). Contar que não é o da 2ª guerra mundial ou da ditadura de 70 – mesmo que seja, aparentemente, só sobre isso que os jornais nacionais, fantásticos e “grandes filmes” queiram falar. 

E, talvez o meu desejo favorito: 

Desejo 6) Cultivar e construir possibilidades, enquanto pessoas que compõe a branquitude, de entender que abrir mão de seguir a manutenção de toda essa invenção colonial não é “perder o direito de existir”. Cosmovisões não euro-cristãs não tem esse ódio a diferença, como nós, (agora sim) sem querer-querendo, temos. Imagina que alívio entender que nós não temos as respostas para a vida porque não é mesmo para termos? Que alívio pensar que invés dos professores confusos que não sabem que não sabem, podemos ser aprendizes?

Imagina viver em um mundo onde o complexo de perfeição não exista?

Meu desejo favorito é sobre um mundo que existia antes da colonização e segue sendo protegido por pessoas que sabem que por, por mais sedutora que seja, a dança colonial, do consumo desenfreado, das cisões com a realidade, é uma dança que levará a morte de todos. Exceto dos super-ricos. Até a netflix já está acostumando nosso imaginário a ideia de que eles vão vazar mesmo pro espaço, após ter exaurido a terra, de uma maneira ou de outra. 

Um mundo onde não precisamos nos sentir mal por quem somos, porque estamos sempre sendo [8]. Onde “erros” não são marcas finais, mas convites a reflexões e possibilidades [9]. Onde a régua das felicidades não são as dificuldades superadas, ou sofrimentos vencidos [10]. A régua não é bélica. A régua não glorifica histórias de crimes contra a humanidade [11]. A régua não diz que só pode-se ter civilização se a diferença for aniquilada e a natureza for violentamente explorada e violada [12]. 

Qual seria a régua em um mundo assim?

Minha lista para 2022 só pode existir se for compartilhada. Inclusive, adoraria que você a criticasse e a ajudasse a ser mais eficiente com seu olhar. O que você alteraria? Para que, em algum momento, a gente possa comemorar também o fim dessa história em que vivemos.

[1] 705 mil homens brancos tem renda maior que a de todas as mulheres negras

[2] mulheres brancas são maioria em cargos de diversidade

[3] Guerras do Brasil – documentário Netflix

[4] They came before Columbus: The African presence in ancient America – Ivan Van Sertima

[5] pensamento aprendido com Geñi Nuñez (@genipapos no Instagram)

[6] África: berço da humanidade – Elisa Larkin Nascimento

[7] Stolen Legacy – George G. M. James

[8] Eliane Potiguara – O pássaro encantado

[9] Espírito da Intimidade – Sobonfu Somé

[10] Contorno cristão dos ensinamentos (bíblia)

[11] Grada Kilomba – Memórias da Plantação

[12] Ideia base do desenvolvimento sustentável, para aprofundar: Ideias para Adiar o fim do Mundo – Ailton Krenak

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