Lugar de escuta

Texto escrito por Davi Akintolá

Ter ficado um tempo parado sem escrever parece ter deixado meus dedos enferrujados. Vou te contar o que aconteceu. Após a conclusão da primeira versão dessa escrita, fui pedir a preciosa consultoria de Mayara (minha companheira de jornada a quem constantemente “alugo” os ouvidos e exponho minhas inseguranças textuais) que carinhosamente me disse: “Davi, isso parece uma tese de doutorado e não uma conversa”. Rimos muito e precisei concordar com ela, estava exageradamente denso e com uma estética dura. Então, na tentativa de te poupar daquele formato de texto enfadonho, voltei para burilar a escrita, com a expectativa de que o resultado final desta vez seja mais fluido. 

Nossa última conversa, se não me falha a memória, foi há 3 meses. Naquela época trocamos uma ideia sobre o fenômeno do Abadá antirracista. Pouco tempo depois disso, recebi um convite de uma amiga para falar em uma instituição de ensino superior, especificamente para estudantes de psicologia. No dia da apresentação tive o prazer de compartilhar a mesa com pessoas muito generosas, mas foi a reação da audiência que fundamentalmente me motivou a vir contar essa história.  Provavelmente o que eu vou falar a seguir não será novidade para você, porém, estou cada vez mais convicto de que o óbvio sempre precisa ser dito. Ao borrarmos o quadro pintado pela cultura colonial, com seus coloridos idealizados de um país harmonioso, nos deslocamos da rasa expectativa dessa audiência. Dessa forma, quando reposicionamos as pessoas negras, tanto quanto as brancas, retirando as primeiras de um lugar de servidão/passividade/agressividade e as segundas de um lugar de superioridade/bondade/ingenuidade, esbarramos em um bloqueio. Voltemos ao evento. Após ter investido uns bons minutos falando sobre algumas das características da branquitude brasileira, quando veio o momento das perguntas do público, o que ocorreu foi que a maioria das questões formuladas tinham pouca ou nenhuma conexão com o que eu havia falado. Era como se eu não tivesse sido ouvido. Aliás, não, eu realmente não fui ouvido. Foi impossível não lembrar de um ensinamento que meus mais velhos, Luiza e Abrahão, estes que já vem arando este solo infértil a mais tempo que eu, chamaram de bloqueio cognitivo-epistemológico. O que fundamentalmente essa experiência me fez perceber é que a escuta é uma tecnologia. Mas talvez você esteja aí se perguntando qual a relevância desta descoberta? Depois de matutar um tempo cheguei a duas conclusões:

  1. A gente ouve com o corpo inteiro (e não só com o ouvido) 
  2. Não existe um corpo igual ao outro

Acredito que poderíamos trocar altas ideias sobre esses dois itens (quem sabe em uma próxima apresentação ou conversa como essa), mas vou tentar ser o mais sucinto possível, mas quem me conhece pessoalmente sabe o quanto eu costumo falhar miseravelmente nessas tentativas. Com a primeira afirmação estou dizendo que as nossas experiências de vida, andanças e corres, vão formando (sempre no gerúndio por ser um processo contínuo) os caminhos de como nós lemos uma determinada realidade. Dizendo de maneira “pomposa”, o nosso repertório interpretativo de mundo está diretamente ligado às nossas vivências. Como já me acusaram algumas vezes de falar em um tom professoral (e recebo isso como um elogio) vestirei essa roupagem e te direi como estou agenciando essa ideia a partir de um exemplo. Daniel Munduruku certa vez contou uma história de como seu avô o levou para lhe ensinar a ouvir o rio. Agora imagine que você sempre viveu dentro de um contexto urbano, provavelmente essa habilidade nunca fez parte do seu repertório cultural. Logo, seu corpo não saberia, de imediato, ouvir aquela geografia, tanto quanto as vivências daquele senhor. Aliás, dentro do nosso contexto, provavelmente aquela experiência seria considerada uma patologia e o autor Munduruku teria que interceder pelo avô, que seria recomendado por algum órgão de saúde a fazer usos de medicamentos psiquiátricos. Adicionando o elemento que geralmente fica de fora das equações interpretativas no nosso país, qual seja as “hierarquias raciais”, fico com a seguinte impressão: a branquitude não é só o silenciamento do repertório de pessoas racializadas, como também uma tecnologia de escuta narcísica. Com o primeiro me refiro especificamente sobre a incapacidade de ouvir o mundo que não seja branco, ou seja, o radar não capta determinadas “frequências” e como resultado disso somos tidos como inexistentes. Me diga, quantas vezes você já puxou o assunto sobre raça/racismo e teve como resposta uma cara de espanto, como se tudo que você acabou de falar fosse uma grande novidades? E isso continua acontecendo mesmo já existindo um acúmulo volumoso de livros, debates na televisão, internet, filmes, documentários. A frequência é tão corriqueira que aprendi a não gastar minha energia explicando e respondendo a determinadas demandas por considerá-las um desperdício. Já em relação a escuta narcísica, eu não sei o quanto você tem familiaridade com o meio musical, mas vou fazer uso de uma analogia dessa área para apresentá-la. Ironizo que a branquitude promove uma remasterização narcísica do mundo. Antes que você pergunte, o dicionário aponta que remasterização é a “Criação de um novo máster, cópia de vídeo ou de áudio feita a partir do original, com o propósito de melhorar e aperfeiçoar a qualidade da gravação anterior”. Já narcísico ele explica que está relacionado a alguém “Que expressa narcisismo, adoração excessiva pela própria imagem ou por si mesmo.”. Dessa forma, ao ouvir uma experiência, a branquitude pasteuriza a pluralidade, vista por esta como impureza, transformando a informação captada em um objeto disforme, porém tido como superior, já que levou seu selo. Tudo que tem valor no mundo é de criação branca. Porém, quando algo possui relevância e não foi criado por mãos brancas, é preciso que se invente uma história, na realidade, um mito, que vá de maneira lenta e sistemática substituindo o original. Assim, com o passar do tempo, sobra apenas o mito, um total embranquecimento  do mundo. Um exemplo cinematográfico desse fenômeno é o agente Smith no filme Matrix. Vocês repararam nessa personagem? Incomodado com suas contradições, seu objetivo passa a ser transformar a diferença em igualdade, ou seja, criar um mundo onde só ele exista.

O item dois na verdade é um desdobramento do primeiro para outros campos, inclusive ao qual pertenço, a psicologia. Quero reafirmar, tendo você como testemunha, a impossibilidade de uma escuta universal e neutra, ou seja, não existe um corpo capaz de ouvir/acessar toda e qualquer experiência intuitivamente. E os motivos para isso eu acabei de dizer. Claro que eu me sinto tentado, como bom acadêmico em formação que sou, a querer responder os múltiplos desdobramentos desse raciocínio, mas tenho certeza que esse texto ficaria infinito pois eu abriria milhares de janelas e teria muita dificuldade de fechá-las. 

O que talvez eu ache importante que fique daqui é que nós não só não escutamos tudo que nos é dito por alguém, como ouvimos de várias formas “as mesmas sentenças”. Exatamente por isso o título do texto é lugar de escuta. Se (e aqui a condicional é fundamental) você me escuta, assim o faz partindo de um determinado lugar. Não sei exatamente qual, mas no encontro você me dará algumas pistas . E ao invés de terminar com certezas essa conversa, quero finalizar com uma dúvida: sabendo da impossibilidade de uma escuta neutra, ou, já que escutamos de lugares diferentes, como a gente constrói uma escuta em comum?

1https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/53993

2Esse é um conceito usado por Angela Figueiredo e Ramón Grosfoguel

3Parte dessa ideia surgiu em diálogo com Tarcísio Miranda no grupo Descolonizando a Psicologia (um lugar que sempre me possibilita bons encontros e ótimas reflexões).

 4https://www.dicio.com.br/remasterizacao/

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