Quem são os mestiços no Brasil?

Escrito por Euvaldo Barros

Desde que as terras brasileiras foram tomadas pelas invasões europeias que as noções de raça marcam a vida dos que aqui vivem, seja para justificar as violências contra os povos não europeus, no período colonial e no Brasil Império, ou para que seus descendentes não se lembrem desse passado violento, nos dias atuais.

Intriga-me em específico a noção de mestiçagem, marca maior da identidade brasileira, que por diversas vezes foi mobilizada pelas elites intérpretes do Brasil para forjar uma falsa imagem de tolerância e harmonia em nossa sociedade. Excluindo da narrativa as tensões raciais tão presentes na nossa vida cotidiana. Interessa expor as consequências que “educar um país a se pensar mestiço” teve na nossa formação enquanto sociedade, no racismo brasileiro e no quanto brasileiros se entendem ou não racialmente.

Este texto parte de algumas reflexões que tive sobre a categoria mestiço e sobre como tal categoria possui lugares distintos se pensarmos em sua aplicação política e na sua definição no imaginário popular. Historicamente essa categoria surge nos censos para nomear todo estrato da população que não se enquadra nas categorias branco e preto, principalmente no que se refere aos descendentes de pessoas escravizadas. Podemos até dizer que essa categoria já ocupou, em em algum momento da história, o mesmo lugar que a categoria pardo. No imaginário popular foi difundida como uma identidade racial de definição dúbia e confusa, considerando apenas a ascendência do indivíduo,  mesmo que num país como o Brasil o preconceito racial seja essencialmente de marca (de aparência/fenótipo), ainda que a origem também seja um significante. Atualmente, desde que se observe que um indivíduo possui ancestrais brancos e não brancos, popularmente essa pessoa se consideraria mestiça e por conseguinte, parda, uma vez que no imaginário popular a categoria pardo comporta os mestiços. E é desse mecanismo que quero falar, o mestiço/pardo como um lugar de não racialização da branquitude e com potencial de desmobilização da negritude. Kabengele Munanga já nos alertava na década de noventa que a elaboração de uma identidade nacional alicerçada no ideal de mestiçagem ocasionaria dificuldades para os negros e seus descendentes de construirem uma identidade coletiva e politicamente mobilizadora, na medida em que essa identidade distancia os negros de sua origem africana e dá aos brancos uma ferramenta pra negar o racismo. Ou seja, tendo o mestiço como ícone nacional, se visa apagar as particularidades dos grupos étnico-raciais aqui presentes e reforçar o mito de que o Brasil seria um paraíso racial. Para os brancos, a existência dessa categoria/ferramenta causa duas coisas: a primeira é que gera uma situação no Brasil, em que pessoas brancas são socializadas sem refletir sobre sua própria identidade racial e o que ela significa na formação da sociedade brasileira contemporânea; E a segunda é que, como bem observou France Winddance-Twine, na ausência de uma autopercepção racial plena e uma compreensão das relações raciais no Brasil, o branco (que não se racializa) encontra no ideal de mestiçagem um mecanismo para se desracializar e negar a própria branquitude, afirmando que os brancos brasileiros não são realmente brancos, mas mestiços, morenos, pardos, bem como a maioria da população brasileira.

Quando se discute essa categoria nos movimentos negros se vê que há uma discussão bem avançada, mesmo porque os movimentos socials negros tem disputado e debatido essa categoria na política e na educação há décadas, sendo que hoje politicamente os pardos, somados aos pretos, configuram a população negra. Ainda que em órgãos oficiais como IBGE se perpetue a definição equivocada de que o pardo é meramente um indivíduo de ascendência mista. No entanto, no que se refere a população branca, ainda é comum ouvir que o Brasil é um país de mestiços e que ninguém é branco. Ainda que em situações de tensão racial se revele de maneira explícita de que o branco sabe muito bem reconhecer a si e ao outro racialmente. 

Nessa perspectiva o mestiço, como uma categoria muito mais ligada à origem, não serve para designar racialmente os brasileiros. A leitura social de raça no Brasil leva em consideração de forma muito mais intensa a aparência, características fenotípicas e a cor da pele dos indivíduos do que sua ascendência étnica. Nesse sentido podem haver mestiços brancos, mestiços negros, mestiços amarelos, entre outros. Dado que o que vai posicionar os indivíduos racialmente na sociedade brasileira é o fenótipo.          

Penso que esse debate precisa ser difundido para que haja a compreensão de que ser mestiço não te torna, necessariamente, pardo (o seja, negro), mas que constroi uma diversidade de fenótipos raciais de um mesmo grupo. No Brasil nem todas as pessoas negras serão retintas e nem todas as pessoas brancas terão a mesma brancura que os europeus. Haverão pessoas negras de múltiplas características, tons de pele e traços fenotípicos, e o mesmo ocorrerá entre os brancos. 

Euvaldo Barros é graduando em Ciências Sociais na Universidade Federal do Ceará. Para entrar em contato: @barroseuvaldo

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