Quase médico  

Era um tipo diferente, parecia gostar mais das plantas e dos animais do que dos humanos. As crianças o adoravam, viviam na porta de sua casa brincando, correndo e fazendo peraltices, sabiam que podiam subir no seu telhado caso alguma pipa ou alguma bola caísse lá em cima. E se ele estivesse por ali certificaria para que elas pensassem sobre qual seria o melhor caminho antes de partirem para a ação, no resgate de seus preciosos brinquedos.   

Era alto e magro, mas não muito, quase branco e com os cabelos encaracolados até os ombros, e a cara doce, um olhar secreto em tom verde-lilás de violetas e folhagem, não atingia os padrões esperados pela sociedade, mas não pensem que era mal vestido ou desleixado, era apenas diferente dos neuróticos que são angustiados e reprimidos pela sua prepotência, superestimava a coragem e vivia da forma como lhe fazia bem, e sabia que ao não se importar com os padrões da pequena cidade, julgariam que era louco, pervertido ou até mesmo um criminoso.   

Não se sabia muito sobre ele, era tímido e reservado no particular, não pensem que não falava, falava até demais, mas raras foram as vezes que falou sobre si mesmo, explicava sobre as doenças e sobre as plantas como poucos faziam pela população que morava ali. Cuidava das plantas, e sabia que elas cuidavam dele também. Então, sempre sugeria para os mais angustiados que cuidassem da terra. 

-“Quem movimenta a terra, movimenta o coração.” – ele dizia.     

Um questionador, sabia que a vida se faz de perguntas, muito mais do que respostas. E talvez por isso, se algo de grave acontecia com alguém, era a ele que a vizinhança recorria antes de levarem para o Dr. Gustavo, um anelado e médico da cidade, que pouco perguntava, mas muito queria fazer para resolver a vida de seus conterrâneos. Deseja tanto resolver os problemas dos outros, que anula os desejos deles.    

Tinha consigo no máximo 3 livros, assim que terminava de ler algum, levava imediatamente para a biblioteca de Dona Cecilia, uma doce senhora, antiga professora da cidade, mas que agora vivia pela e para a literatura, guardava e emprestava os livros, pois sabia que eles possibilitavam as maiores viagens que a mente humana pode ter.   

– “Conhecer o mundo é bom demais né dona Cecilia.”  

– “O mundo todo, só os santos é que conhecem meu filho.”

– “E quem não é Santo, faz o que então?”  

– “Agradece pelos livros meu filho.”  

Era sempre assim que terminavam as conversas entre os dois, mas ambos fingiam que era a primeira vez que estavam falando aquilo, repetiam de forma sincera, pausada, como quem pensa antes de falar, e não pensem que Dona Cecilia também fosse louca, ou que estivesse velha e acometida pelas doenças da memória, na verdade é uma boa professora, e sabe que a repetição pode ser pedagógica.   

O seu Nelson, vivia implicando com o homem, dizia para as pessoas não confiarem naquele charlatão, louco das plantas e dos animais, dizia que ele ainda mataria alguém com aquele seu jeito estranho, que as crianças eram influenciadas a subir nos telhados, a comer as frutas direto das arvores, a brincar na terra e mexer com os animais, e que ele ainda ajudava a pensar em como subir, a saber plantar, como brincar com os animais, que aquele homem deveria estar preso ou em algum sanatório, ele dizia – “Onde já se viu, estamos no século XXI, ninguém vive mais como índio!”    

Um dia, o filho de seu Nelson, brincava de pipa, quando a pipa caiu e ficou enroscada na árvore, imediatamente começou uma correria que só entre as crianças pra ver quem ficaria com aquela pipa cara e bonita do Nelsinho. O Nelsinho foi correndo pra chamar seu pai, e quando os dois chegaram no lugar, as crianças estavam sentadas todas em volta da arvore, e quando o seu Nelson perguntou o que elas estavam fazendo.   

– “Elas estão pensando Dr. Nelson.” – Disse uma voz lá do fundo.   

– “Pensando no que? Que bobagem! Quem pensa muito e pouco faz, não chega a lugar nenhum! Aprendam como um homem de verdade faz.” – Disse seu Nelson 

E começou sua escalada. Chegou até a pipa, e jogou ela lá em baixo para o Nelsinho, que estava todo orgulhoso de seu pai.   

Seu Nelson era o dono da Farmácia da cidade e tenho pra mim que por isso ele implicava tanto com o homem. Diferente do Dr. Gustavo que mandava todos seus pacientes para a sua farmácia em busca do melhor e mais moderno remédio, aquele homem estranho, falava sobre as plantas e acreditava no poder de cura dessas plantas, da terra e até dos animais, dizia que o coletivo podia até curar algumas doenças, que segundo ele, talvez nem existissem se mudássemos de vida.  

Seu Nelson fez uma visita ao seu ilustre amigo Dr. Gustavo e disse que algo deveria ser feito, antes que algum dos honestos cidadãos da pacata cidade viesse a sofrer as graves consequências de ingerir algum perigoso ingrediente daquele louco, degenerado que veio de longe, provavelmente fugindo para habitar aquela cidade. O Dr. Gustavo que também tinha seu pé atrás, resolveu chamar um amigo psiquiatra, desses que leem livros grossos e conhecem uma quantidade enorme de palavras e de pessoas importantes.   

Chegando na cidade, o médico psiquiatra passou pela casa de Dona Cecília, fruto de uma feliz coincidência, que não cabe nessa história. Conversaram um pouco sobre o dia, e sobre alguns dos livros que surgiram a vista daquela visita de médico. Como um bom curioso, perguntou se Dona Cecilia, conhecia o homem das plantas, e o que ela achava dele.   

Sem saber muito sobre aquele homem com roupa elegante, foi reservada.   

– “É um bom moço, vive de forma honesta e não perturba a ninguém, só fala quando falam com ele.”  

O médico, foi então a procura de Dr. Gustavo, e chegando lá foi recebido pelo amigo e por seu Nelson, que estava ansioso pela vindo do médico psiquiatra.  

“Bom dia, doutor.” – Disse seu Nelson.   

Os amigos se cumprimentaram e seu Nelson foi logo dizendo.   

– “Doutor, trabalho a 20 anos com os doentes, até mesmo os ansiosos e depressivos vão até a farmácia, mas eu nunca vi um daquele tipo, é um louco doutor, deveria estar a muito tempo aos cuidados da ciência ou em algum sanatório, desses bem longe da cidade, é uma péssima influencia para os cidadãos, principalmente para as crianças.” 

Foram até a casa do homem, uma casa grande e simples, muitas plantas, poucos moveis e muitos bichos, os cachorros – creio que pra mais de 10 – começaram a latir e o barulho se tornou ensurdecedor, como a porta ficava aberta e os bichos soltos, os três visitantes foram se recolhendo e ficando cada vez mais acuados e com medo dos cachorros.   

Um assovio alto faz com que os cachorros cessassem, acabou os latidos e o ambiente ficou mais calmo. O médico psiquiatra o fitou na porta, e imediatamente sorriu. O homem parado na porta, sorriu de volta e foi andando em direção aos visitantes.   

– “Carlos?” – Disse o homem 

– “Ah, seu safado venha aqui!” – Disse o médico psiquiatra 

Se abraçaram, de forma longa, como quem abraça o tempo e pede pra ele voltar, mesmo sabendo que o tempo nunca volta.  

Seu Nelson e o Dr. Gustavo não estavam entendendo nada.   

– “Vocês se conhecem?” – perguntou seu Nelson.  

– “Sim, nós nos formamos juntos” – disse o médico psiquiatra.    

 – “Ah, outro colega de profissão” – Disse o Dr. Gustavo e emendou – “Logo vi, pelos seus modos e a maneira como fala e se porta, um revolucionário em nossa profissão, vivendo como povo, admirável. Mas essa gente por aí vive dizendo tanta coisa.” 

Seu Nelson, não disse nada naquela hora, estava catatônico. Chegando em casa, disse aos filhos.   

– “Não podemos confiar nem na medicina mais, uns degenerados, que entram nas universidades pelas cotas e aprendem safadeza e misticismos, não se fazem mais médicos como antigamente. Trocam as tecnologias para aprender como bichos, logo, vão nos obrigar a viver como os índios novamente.”   

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