A história do mundo de uma só cor

A presença maciça de europeus e seus descendentes em várias regiões do Brasil se deu pelo oferecimento de terras para moradia e plantio, sem que eles precisassem fazer nada por isso. Isso aconteceu após terem roubado riquezas e violentado nossa população. Ainda sim, mereciam uma condição privilegiada que os brasileiros da época não tinham. Passamos a expiar uma culpa que não tínhamos e que não poderia se dissolver sem admitir que éramos diferentes (deles).

Agora o cenário é outro, estamos em 2021, vivemos uma pandemia que deixa milhares de mortes, inflação nas alturas, o Brasil retorna para o mapa da fome e o nível de desemprego atinge o seu recorde, de 14,7% da população ativa, o que significa 14,761 milhões de trabalhadores desocupados (dados do IBGE). Qualquer pessoa branca que saiba ler, tem essas informações a um clique. Não precisamos fazer grandes esforços para saber algo que é notícia constante em todos os meios de comunicação.

Bom, era o que pensava até ouvir como resposta para uma pessoa em situação de rua: “você precisa trabalhar. Tem que trabalhar.” Se colocar no lugar do outro é um exercício que se faz com prática e imaginação, senão a gente sai falando um monte de branquisse por aí. Parece que existe uma dificuldade enorme em se implicar na situação por completo e pensar a complexidade das coisas que não se encaixam numa soma simples de duas dezenas.

Esta resposta acima é completamente delirante se pensarmos um pouco: (i) quem gostaria de estar na rua pedindo esmola? Destaque para: esmola. (ii) a vulnerabilidade por trás dessa condição. Seria difícil pensar que uma pessoa não tem mais a quem recorrer do que ter decidido pedir esmola? Mas, nós brancos, conseguimos essa façanha (iii) não tem trabalho disponível no Brasil, vivemos numa crise com um número enorme de desempregados. Negar a realidade é mais conveniente em muitos casos. (iv) finalmente, que tipo de trabalho é esse e em que condições ele se apresenta para quem tem “sorte”?

Sorte. 

Essa palavra é utilizada para falar de direitos ou condições mínimas como ter um trabalho que respeite a CLT, pra ficar num exemplo. Quando passamos a utilizar sorte para questões como essa? E o mérito para falar de alguém que tem herança e explora a força de trabalho de corpo e alma?

 “Deve ter sido no mesmo momento que fazíamos um favor trazendo os europeus para cá.” 

Soa muito desumano pensar dessa maneira, mas, é isso que eu sempre ouvi no meu mundo colorido de uma só cor: branca. Uma só gramática, uma só certeza, uma só resposta, uma só possibilidade de ser.

É dessa maneira que percebo ser branco no Brasil: um grupo individualista, incapaz de olhar pro lado e se reconhecer no seu semelhante. Quando Lourenço Cardoso traz a ideia do branco drácula – grupo incapaz de ver sua imagem refletida no espelho – me ocorreu um novo pensamento, agora chamando Lacan para essa conversa; a primeira imagem que vemos refletida no espelho não pensamos ser a nossa própria. A primeira imagem achamos que é de um outro, por isso o bebê tenta pegá-la e se frustra quando alcança o seu reflexo.

Portanto, sofremos uma dupla perda, primeiro a de não reconhecermos o outro e, como consequência, não nos enxergamos. A medida que isso não é possível, nos distanciamos dos laços sociais.

Passamos então a dar respostas prontas, fingir que não vimos, desconsiderar contextos e dizer: “vai trabalhar”, “e daí? Sou Messias, mas não faço milagre”. A gente descola recordes de mortes das vidas tiradas, vidas de pessoas pretas. Um monte de gente alienada da realidade vivendo num mundo colorido de uma só cor. 

Estamos tão distantes da verdade que oferecemos terras para o agressor e expulsamos os nossos do convívio em sociedade. Deixando-os nas bordas, oferecendo aquilo que já não queremos mais e achando ofensivo não serem gratos ao receber esmolas. Oferecemos um pouco de dignidade uma vez ao ano para massagear o nosso ego e assim fazemos as pazes com a nossa consciência.

 Até quando continuaremos nos enganando e fingindo não ver a realidade? Até quando continuaremos negando as imagens refletidas no espelho?

Escrito por Marcelle Rodrigues

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