Legado roubado

Escrito por Lorrayne Santos

Oriki de Ajé

Iré wolé wá!

Ajé kore dé.

Olorieni mamá ni.

Ajé wolé dé.

Ire wolé bó

Olowó ori eni mamá ni

Tradução

Que o bem e a prosperidade entre em nosso lar!

Ajé chegou com a sorte.

Ela é a senhora do nosso Orí

Ajé, entre em minha casa!

Para que a sorte entre logo no meu lar e na minha vida.

Ela é a senhora da Prosperidade que reina em minha vida.

Os brancos deste país tem uma mania de achar que pessoas pretas são alheias à riqueza, de forma geral. Isso me leva a pensar na meritocracia, ou seja, se a gente é pobre é porque a gente quer. Afinal basta eu me esforçar pra conseguir almejar aquilo que os brancos já tem. Como se a riqueza, os bens materiais pertencessem à eles. A questão é que o projeto brancocêntrico promoveu e continua promovendo o roubo e a destruição de povos africanos e seus descendentes, bem como dos povos originários, ao longo da história. Quando eu me dei conta disso, que tivemos o nosso “legado roubado”, passei a me sentir menos culpada com a minha prosperidade. Falo em prosperidade como riqueza material e imaterial. Até porque tudo aquilo que é invisível que é do campo espiritual, é muito maior do que qualquer coisa que o ser humano possa adquirir em forma de bens. 

A questão é que a sociedade baseada em valores ocidentais acredita que a riqueza e a prosperidade tem dono. Aquilo que eles possuem é deles por direito. Direito de quê? De ser humano, talvez. Como eles não enxergam em nós uma humanidade, logo eles nos associam a tudo o que é falta, tudo o que é escasso e pobre. Em diferentes níveis de pobreza, mas a mais importante pra eles é a pobreza financeira. Para uma sociedade que se funda no roubo e na destruição de outros povos a ideia é: “você é o que você tem”, na carteira ou no banco. Afinal é o dinheiro que traz felicidade. Digo isso não para reforçar uma ideia de que podemos ser felizes sem dinheiro. Não é sobre isso. Até porque, o que coloca em cheque a nossa riqueza é o fato de termos sido roubados, saqueados. Como no caso da “lei de terras de 1850 que proibia legalmente qualquer pessoa negra de ter acesso a renda, ou qualquer propriedade em seu nome. O que significa dizer que as pessoas que produziam riquezas eram impedidas por lei de acessá-las”, como me ensinou Amanda Dias (Grana Preta). Até hoje isso gera impacto direto em nosso bem viver. Tudo aquilo que produzimos por séculos foi apropriado para que pequenos grupos fossem beneficiados. Nossos territórios foram roubados, assim como nossas águas, nossos minérios, nossa dignidade. Até o nosso saber eles roubam, mas nosso conhecimento resiste. Porque temos tecnologias favoráveis ao nosso povo, que garante que a nossa memória esteja viva e que possamos passá-la adiante. 

Tenho refletido muito sobre isso, porque de uns anos pra cá saí da periferia e fui morar em bairros privilegiados. E é gritante como os brancos desses locais não aceitam o fato de ver pessoas pretas bem sucedidas. E olha que eu ainda nem almejei tudo o que quero. Já me deparei com vizinhos de apartamento super incomodados com a minha presença. Só por estar aqui, enquanto moradora. E não enquanto doméstica, por exemplo. O olhar deles me diz: como você pode viver aqui? Como nós? Engraçado isso, porque o racista tem uma mentalidade muito mediana. Tipo a quinta série, quando fazem birra dizendo que “fulano pegou meu brinquedo”. Eles acham que vieram nesse mundo para brincar. E o pior: brincar só entre seus pares. Todo o resto fica com a gente: a miséria, o desemprego, a falta de poder. Ouvi síndico me dizendo que meu terraço não poderia ser utilizado, porque pertencia a uma área comum do prédio. Me ameaçando pagar multas por utilizar o espaço que pago para usufruir. Também teve subsíndico interfonando dizendo que não poderia estender roupas no terraço, porque “fica a cara da favela, se é que você me entende”.  Eles vivem associando nosso terraço com uma laje, local onde arremessam lixo cotidianamente. Se acham tão civilizados, mas a civilidade dessa gente é a imundície. Acredito que a elite/classe média/classe média alta, não tem interesse numa laje, social e popularmente conhecida como “coisa de favelado”, afinal quem tem dinheiro quer mesmo é possuir, através de uma cobertura, “um lugar ao sol”. Estes absurdos e outros tantos que já ouvi só por ser preta e conviver no mesmo ambiente que essa gente. 

Se tem uma coisa que branco não aceita é ver uma pessoa preta com autonomia, no comando de sua própria vida, sem precisar deles pra sobreviver. Porque o natural pra eles é que estejamos sempre subjugados. O que eles fingem não enxergar é que são completamente dependentes de nós, de muitas formas. Se não fosse o trabalho escravo secular e super-explorado de pessoas pretas, quem seria a elite branca? E ainda tentam nos convencer, a muitos de nós, que nós estamos onde estamos e não temos o que eles têm por escolha nossa. 

Desde criança minha mãe sempre me falava que eu só queria o que era bom. “Tudo do bom e do melhor”. Infelizmente ela não podia me dar tudo aquilo que eu queria, mas a riqueza de conviver com a mulher que é a minha mãe é impossível de precificar. Tudo o que aprendi e aprendo com ela é abundante e próspero. E esse legado eu posso passar adiante, porque são valores e princípios de um povo que se pauta na solidariedade e coexistência humanas. Por isso, todos os dias, tento internalizar o que aprendi com a professora solar Aza Njeri: “nunca, jamais negocie sua humanidade”.

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