Abadá antirracista

Escrito por Davi Akintolá

O Brasil definitivamente não é um país para gente amadora e eu, que vim da cor da noite, não posso nunca me esquecer disso. Silvio, me lembro de te ouvir falar sobre as armadilhas da “micareta racial”. Claro que eu chorei de rir, mas percebi uma didática a partir do seu deboche, um alerta para que eu não caia na arapuca do fetiche antirracista que surgiu nas redes sociais e meios de comunicação. O ditado popular avisa, as aparências enganam e aprendi com sua música Sant que “se eu seguir só o meu coração, me fodo na próxima esquina”. Na real, nem precisei de muita atenção para perceber que as telas até ficaram momentaneamente pretas, mas a consciência da população continuava alva como a neve. Tendo isso em vista, como bom estudante que sou, seguirei nessa sua sintonia, mas longe de mim querer tratar as coisas de maneira jocosa e catimbar o debate daqueles que se consideram tão importantes, né Lélia?

Me parece professor, que passado esse furor de 2020, um novo ciclo se inicia, um flashback repaginado do fenômeno que você descreveu. Agora a branquitude está preocupadíssima em ser nossa “Aliada” (com A maiúsculo) e com isso garantir o que eu chamo de “abadá antirracista”. Ora, me parece no mínimo curioso perceber que o senso de urgência na aquisição desse item não só supera, como também ofusca a necessidade de desarticulação do próprio racismo. A dinâmica é mais ou menos assim, o Brasil é um país racista, sem pessoas racistas que agora defendem com unhas e dentes o antirracismo, entendeu? Ou seja, não é de hoje que parecer antirracista é considerado melhor do que de fato ser e agir nessa direção, certo?

Aliás Silvio, na micareta, existem 3 tipos de público, basicamente: o primeiro que fica no camarote, o segundo que fica dentro das cordas de proteção e a pipoca. De maneira análoga, penso que é possível fazer um paralelo com a postura colonial da “gente fina e educada”. A primeira seria a branquitude que assiste no conforto do camarote a pauta antirracista passar, com o máximo de distanciamento possível evitando qualquer tipo de contato ou transtorno. A segunda, a branquitude que veste o abadá antirracista e se auto-intitula “Aliada”. Ela parece estar muito afinada com a gente, “cantando” e “dançando” a mesma canção contra a opressão de raça, mas na verdade está muito bem protegida atrás de um maciço cordão de isolamento. Ou seja, o envolvimento dela está circunscrito em uma redoma que é muito bem protegida pelas forças de segurança e da ordem. Logo, no momento em que a gente decide cortar o cordão de isolamento, ela rapidamente aciona o “mindset” da casa grande, um repertório vastíssimo que vai de comunicação não-violenta até o choro histérico. Por último, somos nós, pessoas negras, a maioria do “rolé”. Esta que é descrita como uma massa homogênea, apesar da pluralidade, tratada com repulsa e total desdém pela primeira e apreensão pela segunda. Apesar da primeira ter grande poder, sua posição está límpida, ela nos odeia e sem cerimônias, tem orgulho de se identificar com sua herança colonial. Mas, diferente desta, cuja postura é facilmente identificável, a segunda é a que me causa maior preocupação e cuidado redobrado, já que essa se camufla. Mas, como diz a piada que circula na internet, “quem é de verdade, sabe quem é de mentira”. Por exemplo, lembro-me da Beatriz comentar a muito tempo atrás em seu livro, absolutamente estarrecida e não sem motivos, sobre uma violência que para mim é típica da turma do abadá antirracista. A genial escritora narra um episódio onde, uma dessas pessoas que sabem mais sobre a gente do que a gente mesmo, como diz ironicamente Lélia, teve a ousadia de se afirmar mais preta do que ela, afinal, a dita cuja tinha escrito um trabalho sobre religiões de matrizes Africanas. Eu sei, pode até parecer palhaçada, mas quem é a atual dona do circo? Desde Lélia até Geovana o “arraiá da branquitude” está aí, formando a gente nas universidades, ocupando espaços de produção cultural, literário, ganhando destaque, simulando amizade, falando da gente, mas, nos barrando de entrar nas festas para que possamos fazer o nosso próprio show.

Por último Silvio, para que no futuro a gente possa falar sobre outras coisas mais interessantes e consequentemente menos violentas, quero aproveitar esse relato da Beatriz para pensar numa outra experiência perturbadora. Se na época dela a branquitude queria ser mais preta que ela, hoje ocorre um fenômeno que algumas pessoas chamam brilhantemente de “afro conveniência”, ou seja, a galera do abadá antirracista, acreditando que cotas são um privilégio e visando ocupar as vagas destinadas a tal política reparatória, criam (ou dizem resgatar) um familiar negro, para com isso, atestarem que são negras. Fanon, você não viveu o suficiente para ver o fenômeno inverso ao que consta em seu primeiro livro. Agora, as peles brancas usam máscaras negras. Diferente da sua obra maestral, a branquitude veste a máscara negra não por uma imposição, mas sim na gana de tentar perpetuar a espoliação parasitária, por qualquer meio necessário.

Diante disso, professor, a única coisa a passar pela minha cabeça é que não faço questão alguma de ser aliado de quem quer vampirizar a minha energia. Enquanto a trupe do abadá antirracista continuar tentando estabelecer uma relação de aliança a partir do próprio delírio de superioridade colonial hereditário, se imaginando no lugar de ventriloquo, não vai existir nenhuma possibilidade de conciliação.

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