O elevador

O elevador

JornalZine Branquitudes. Era o nome do projeto que comecei a me envolver, a conhecer – isso final de 2020, talvez. Comecei a me entender enquanto sujeito branco privilegiado por uma estrutura de exploração baseada na raça, aqui no Brasil, comecei a me entender enquanto racista. Me doeu, me dói. Perceber que o que faço e o que (e)s(t)ou é conformado por ser branco, por ter me acostumado desde a infância a ser racista, por ser homem e branco e dever ser hétero.  Por ser produtor e coautor e beneficiário de violências sérias, cotidianas, hodiernas, reais, não fictícias, não simplesmente literatura, cinema ou referência bibliográfica. Por ter pensado um dia que não me interessar pelo tema da raça e do racismo era algo que estava tudo bem, não tem a ver comigo, não há como abarcarmos tudo em nossas vidas. Por ter sido racista e ter familiares racistas, lembrar claramente (talvez um jogo de palavras) momentos em que fui mais abertamente racista pela diversão, por não poder perder a piada, mesmo tendo consciência de que aquilo não era legal. 

No prédio, em Salvador, as pessoas negras que vi ou são os porteiros, ou é a mulher da limpeza. Que eu me lembre, tem uma senhora, embaixo do apartamento onde vivem minha mãe e pai, que é negra, junto com outra senhora. Deve haver mais gente, que ou não me lembro, ou não vi. O apartamento é na Barra. Fizemos cachorro quente um dia e levamos pra ele. Não é a primeira vez que fazemos algo e o levamos. Não lembro, no entanto, de fazermos isso com nenhum outro porteiro. Eles ficam esse tempo todo, 12 horas seguidas, e as pessoas que moram no prédio não têm chave. Eles controlam todo o fluxo de quem entra e quem sai. Questionei minha mãe e pai sobre isso, pois daria mais independência, mas disseram que ouviram gente comentando, tipo a dona do apartamento que alugamos, que era melhor fazer eletrônico, que não haveria necessidade de porteiros. Dando a chave do portão a quem mora no prédio, eles perderiam o emprego. Manuel é negro, dos olhos azuis. Minha mãe contou um dia que durante seu almoço (os porteiros funcionam no sistema 12/36), a uma hora de almoço que eles têm, Manoel foi num prédio das cercanias pra limpar a janela dum apartamento. Sua esposa, grávida, não podia fazê-lo, pois era por fora e não havia grade. Muito perigoso para ela.  

Um dia eu ia descer, pra fazer não sei o que, ir ao mercado, ver um filme no cinema, correr, correr não, mas alguma outra coisa, e ela, a moça da limpeza, Cirene?, não, estava no elevador. Tem o elevador social e o de serviços. O prédio, segundo minha mãe, é da década de 50. Talvez mais depois, posso estar me lembrando errado. De qualquer maneira, em 2021 tem o elevador de serviço e o social, e os apartamentos têm a porta que dá direto na sala e a que dá direto na cozinha, além do quarto e banheiro de empregada. Ia descer no elevador e ela, cujo nome não me recordo, ia descer pelo elevador de serviços. Resolvi entrar. “Ora, pensei, não tenho barreiras, não posso ter barreiras. Vou descer no elevador com ela, não sou racista, estou estudando isso agora.” Eu não sabia em que andar ela desceria. No elevador, silêncio. Estávamos no 15º andar. Lentamente – o elevador é antigo – lentamente descemos. Silêncio. Paramos. “Não sei em que andar estamos (há uma brecha de vidro em que se pode ver fora, era de dia, ou seja, se estivesse escuro era algum andar que não o térreo, onde eu desceria). Não vou descer. Vou esperá-la.” Enquanto pensava isso, em fração de segundos, abria e fechava minhas mãos, paralelas ao corpo, como faço quando estou nervoso. Encontrava-me em frente aonde a porta se abre. Depois de um tempo, depois dessa fração de segundos, ela, com um “tsc” e balançar negativo de cabeça, sentindo na pele (como suponho que sentiu) meu racismo costumeiro e inconsciente, abriu a porta pela base, donde estava mais próxima, desviou o olhar de mim, que olhei pra ela com o olhar de quem não entende, quase cinicamente, cínica e inconscientemente, como na mente de um jovem racista, de um “sinhozinho maltês”, como brincavam ironicamente minha mãe e pai quando era pequeno e já muito autoritário, abriu a porta pela base e esperou-me sair. Saí, com o corpo frio, com calafrio, arrepiado, pensando “será que fui racista?, não acho, pensei que não havia chegado no térreo. Não, foi isso, não foi racismo (não sou racista).” Será? 

Algo que aprendi de muito importante nessa época, foi que o racismo é costume, é hábito. Não só o racismo, mas como o machismo, a LGBTQIA+fobia e toda forma de opressão são hábitos. 

Será que não fui racista? Ou o fui, mesmo estando estudando e feito um curso sobre branquitude?, mesmo estando assinando esse jornal sobre o assunto, mesmo? Quem sabe. Assim que saí do elevador, após ela, mulher negra que segurava a porta pra mim, que trabalhava no prédio em que morava, pensei que não. Pensei que foi um mal entendido. Cá estou, meses depois, pensando nisso.

É cotidiano, é inconsciente, é habitual.

Escrito por Igor Miraz

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