Herança que Importa

Não sei como contar a vocês. Essa história pode ser real ou invenção de minha cabeça.

Trabalho em um clube que é muito tranquilo. Nesse clube tem só gente bacana de nome famoso. Certo dia, estava jogando paciência aguardando o tempo passar, naquele ambiente refinado e restrito. Quando meu patrão entra pela sala, uma figura carismática, com um sorriso largo e um andar macio. 

Está acompanhado de uma senhora e de um senhor. Nunca tinha visto aquela gente por ali. 

Se aproximam de onde estou e meu patrão pergunta: 

– Poderia pegar os papeis de transferência de título, por favor. 

– Certamente senhor. 

Minha função naquele trabalho, além de jogar paciência e aguentar piadinha de gente rica, é servir café, utilizar pronomes, sufixos e a norma culta de uma língua ingrata. Desde que trabalho no clube, contava na mão os papeis de transferência que peguei. Inclusive, teve uma vez que chamaram aquele papel timbrado e com as abas douradas de epistola. Eu que não sabia o que era, fui pesquisar. 

O google me explicou, porque que essa gente fala o que fala. Se sentem como Deuses mesmo. Peguei o papel, aquela caneta pesada e levei até eles. 

– Obrigado. 

– Disponha Senhor.  

Olhei nos olhos de todos com simpatia e sinal de subserviência. Estava me retirando, admirado com a beleza dos anéis, das roupas e das mais finas botas que já havia visto, quando meu patrão me chamou e disse:

-Venha cá, por favor. 

Voltei e fui convidado a me sentar. Houve de minha parte um espanto tremendo.  Por que será que estou sendo convidado a me sentar com essa gente bacana. Sentei espantado, sem dizer nada. Fui convidado a beber, quando solicitaram ao maitre. Bebi, ainda sem me manifestar. Sem delongas meu patrão começou a falar, se referindo ao senhor que lhe acompanhava. 

– Uma personalidade rica e atraente, com cativante senhorio feito de elevação e nobreza de alma, uma erudição incrivelmente vasta – histórica, filosófica, religiosa, linguística – que aflora sem alardes nem ostentação, assombrosa fecundidade poética e literária em clave de grandeza épica, seus conhecimentos musicais e pictóricos, sua afabilidade e simplicidade de trato com todos (desde o aristocrata mais refinado até o camponês com quem se comprazia em conversar em língua indígena), sempre procura dignificar e fazer o bem aos que têm o privilégio de conhecê-lo; e, por cima de tudo, sua fé católica profunda e íntegra, marcada por fervorosa devoção mariana, o destacam como exemplo de cavaleiro brasileiro e cristão.

Não entendi toda aquela cena. E quase dei risada. Mas sentia que se tratava de alguma coisa importante. 

Fez-se uma pausa e todos sorvemos alguns goles da cerveja. Quando o senhor que havia sido exaltado continuou. 

– O senhor deve se admirar que foi convidado para sentar-se à mesa conosco. Somos membros da mais fina e seleta classe. Ricos. Somos ricos e falamos sem nenhum alarde. Temos carros, casas e numerosos empregados, vou onde quero e compro o que tenho vontade. Custeamos tudo isso sem o menor esforço. 

– E por que está me falando isso tudo? Não estou compreendo essa situação toda.  

– Por quê? Porque queremos ganhar mais e mais dinheiro. Queremos sempre mais, para proclamar a todos nossa riqueza. Mas apesar de ricos, nos falta certa nobreza. E vocês podem assessorar dessa maneira. 

– Mas o que tem aqui que lhes interessa? 

– Não sabe? Aqui têm a herança que importa.

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Essa história foi inspirada nos vídeos “Que comam Brioche” parte 1 e 2 de Senhorita Bira, no canal do Youtube – O algoritmo da imagem. E em um dos contos de Lima Barreto – “O rico mendigo”.

Escrido por Edgar Bendahan

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