Alà Jetsons

Chegamos em 2021. E o que fizemos até aqui? 

Ainda pequena, adorava assistir a família Jetson na tv. Desenho animado produzido pela Hanna  Barbera, fazia um baita sucesso na televisão na década de 90. O desenho contava altas histórias do  dia a dia da família de George Jetson, na cidade de Orbit City, um mundo compartilhado por humanos  e robôs. O ano em que aquela realidade paralela acontecia? 2062. 

Carros voavam, as jornadas de trabalho eram reduzidas, havia mais tempo pr’eles aproveitarem a vida  como um todo e as casas, mercados, empresas, QUASE TUDO flutuavam, suspensas sobre o chão. Um  sonho de vida para qualquer família. 

No desenho em questão, a família retratada obviamente era uma família branca. Pai e Mãe cis ruives,  e us filhes, uma menina platinada e o caçula loiro. Uma família com suas especificações, mas que  representava bem o “american way of life” norte americano. Aquela coisa da família classe alta que  dividia a vida com robôs, como era o caso da empregada doméstica de George, Rosie. Pois é. Quem  cozinhava, limpava, fazia os afazeres domésticos era uma robô . 

Imaginar que os primeiros episódios da série foram escritos ainda na década de 60 nos Estados Unidos  nos faz pensar qual o futuro que este país tinha como modelo de “ideal”. Um ideal branco e  autocentrado. 

Além de ser um marco para a era das transmissões coloridas, ‘Os Jetsons’ ficaram também conhecidos  por mostrar tecnologias que, apesar de modificadas em alguns casos, estão presentes em nosso  cotidiano. Uma pegada meio ‘Black Mirror’, disponível na Netflix. Assistimos cada episódio pensando  “poxa, mas é quase isso mesmo”. Pelo menos em nosso ideal imaginativo (afinal, poucos são os que  detém dessas tecnologias top de linha). 

Vejamos: atualmente já existem diversas máquinas que ajudam a manter a casa organizada. Talvez  não tenhamos chegado, ainda, nos moldes de ‘Os Jetsons’, mas já temos discos que varrem e aspiram  a casa, robôs que limpam a piscina (sim! que limpam a piscina!) e até humanoides que fazem a limpeza  da casa, colocam a roupa na máquina de lavar e esquentam comida no microondas. 

E as chamadas de vídeo? Em diversos momentos, a família faz chamadas entre si ou com outres, para  se comunicar com integrantes que estão longe. Para nós, isso parece algo bastante comum,  principalmente neste momento pandêmico em que vivemos em distanciamento social. Com  equipamentos que facilitam essa comunicação, como computadores e smartphones, projeções no  desenho são construídas. Coisa que se formos pensar acontece no mundinho de cá também. Vai dizer  que nunca ouviu falar de algum cantor famoso que na realidade não estava presente no clipe ou  gravação disponível online? (Nick Minaj em seu feat com a cantora Anitta na música ‘me gusta’, por  exemplo, foi construída em uma projeção 100% feita por computador).

Os Jetsons até poderiam ser nosso futuro de sociedade. Não fosse por um porém: quase não há  representações negras no desenho. Não vou dizer que nenhuma representação tenha passado por lá  – faz muito tempo que não vejo esse desenho- mas num geral, os episódios que encontramos online  não possuem pessoas negras no elenco. É como se a tecnologia crescesse a um ponto ideal, mas as  corpas ali existentes fossem representadas por aqueles que detém o poder no mundo do capital:  gente rica. 

Quem poderia pensar num lugar desses? Um mundo flutuante com carros voadores e tablets pra  contato com as notícias e outras pessoas? Pensa comigo se não foi com certeza um grupo de pessoas  brancas pensando sobre o futuro da família branca? 

Mas o que aconteceu com o resto dos humanos?  

Por que não estão por lá? 

Já vivemos em uma realidade onde carros andam sozinhos, no modo automático. Países como a  Estônia já tem transporte público sem motorista e todas as informações de saúde que você possui  estão gravadas em seu número de identificação, que funciona como um RG de TODEs do país. Isso  facilita e MUITO tudo! Já pensou quanto tempo perdemos no Brasil em filas e filas de pagamento de  boleto, filas de Banco e médico? Pois é. Na Estônia quase não existem filas. O tempo de trabalho de  cada habitante de lá é limitado a 4 horas diárias e… puxa… dá vontade, né? Vai me dizer que isso não  ajuda pra que a saúde mental do país seja tão elevada!? 

Esses dias li que o dono na Amazon mandou construir um carro que viajasse no espaço. Ganhando o  tanto que ganhou, em bilhões, durante essa Pandemia, tais tecnologias foram extraídas e elaboradas  por cima de quem? Se notarmos bem, pessoas bilionárias já andam exercitando pensamentos no fora terra a um tempo, visto a destruição tremenda que o capitalismo (e nós!) tem(os) feito em cada  cantinho do nosso planeta. Por que não se pensa sobre preservação? Por que não se fala em nossa  responsabilidade enquanto mundo em estar aqui, garantindo água e comida à todes? Por que nos  individualizamos tanto a ponto de pensarmos em viagens inter-galacticas, mas não pensamos no  agora, sobre o fim da água potável no Brasil em 2050? 

Será que o futuro será esse? 2062 está muito longe? 

Quem terá acesso à essas tecnologias? 

Seguiremos nós, pessoas brancas, matando tando direta como indiretamente QUEM pra se construir  um mundo alà Jetsons? 

Tá na hora de estourar nossa bolha

Escrito por Amanda Carvalho

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