Estrangulamento Temático

Não é novidade para uma parte significativa das pessoas que vivem no Brasil que o racismo é um fenômeno multifacetado. Claro, tem sempre quem duvide não só dessa afirmação, como também do próprio racismo, preferindo acreditar em coisas fantasiosas como “só há a raça humana”, “todo mundo é igual”, “a terra é plana”, “papai Noel e coelhinho da páscoa são reais”. Se você que me lê acredita em qualquer um dos pontos anteriores, quem sabe a literatura fantástica te seja um gênero mais atraente? 

Pois bem, tendo alinhado os rumos dessa nossa prosa não ficcional, vamos conversar sobre um fato que, de tão presente, acaba sendo invisibilizado. Me refiro ao estrangulamento temático de pessoas negras, ou seja, o assassinato dos conhecimentos negros pelo racismo. Porém, antes que eu fale mais especificamente dessa problemática, acredito que seja importante uma pequena ambientação na tentativa de reduzir possíveis ruídos de comunicação. Faça o seguinte exercício de memória, tente lembrar dos programas de televisão dos canais abertos, rádio, podcasts, lives no Instagram, Youtube, Facebook, palestras nas universidades que você assistiu. Eu não sei o que você costuma assistir, mas provavelmente a maior parte desses conteúdos foram produzidos e protagonizados por pessoas brancas que falavam sobre os mais variados assuntos, certo? Agora, consegue recordar dos programas onde pessoas negras eram entrevistadas? Aqui vale uma pequena observação, se sua resposta for não para essa pergunta, o problema é ainda mais grave. Voltando, conseguiu lembrar? Quantas dessas pessoas não estavam falando sobre racismo? 

É possível que nesse momento te surja uma objeção. Você pode me dizer “mas Davi todas as pessoas negras que eu ouvi falar eram especialistas em relações raciais”.Tudo bem, vamos trabalhar nessa trilha, mas já adianto que essa tese tem mais furos que queijo suíço. Para provar o meu ponto vou citar três intelectuais (mas poderia falar outros tantos) que são largamente chamadas(os) para falar sobre questões do nosso país. Todas(os) são “nacionalmente famosas“, entende-se, falam a partir do sudeste (mas isso é papo para outro texto), todas(os) brancas(os). A primeira, a professora Marilena Chauí, especialista em Espinosa; na sequência,  os professores Clóvis de Barros Filho, especialista em Ética e Leandro Karnal, especialista em história da América. Uma ressalva, eu sei que o Karnal nasceu no Sul, mas sua carreira, até onde me consta, é toda construída a partir de São Paulo. Repare, cada uma dessas personalidades são convidadas constantemente para falar em diversos lugares sobre os mais variados assuntos, que vão de (re)pensar a democracia, até questões do mundo corporativo. Não vemos de forma alguma esses indivíduos sendo reduzidos às suas especialidades de formação acadêmica, pelo contrário, existe uma expectativa de que o pensamento dessas pessoas vai “iluminar o Brasil”. Veja, caso lhe reste ainda alguma dúvida, a questão central aqui não é criticar o que essas pessoas construíram a partir de seus estudos e análises, mas apontar que isso só foi possível graças a uma platéia (e instituições) que privilegiam a fala de pessoas brancas. A impressão que esta situação passa, pelo menos para mim, é um sentimento de que cabe ao indivíduo branco a “nobre” tarefa de pensar alternativas e traçar os planos para o Brasil e aos demais apenas, quando muito, a implementação desse projeto.

Mas talvez você ainda não esteja satisfeita e levante outra contestação, aliás, do meu ponto de vista, não muito melhor do que a primeira, argumentando que na realidade trata-se de currículos e qualificações. Ora, ícones como Sueli Carneiro, Rosane Borges e Deivison Faustino (para citar também três, mas poderia apontar dezenas de outros nomes) possuem qualificações inquestionáveis, com experiências no exterior (que no nosso país é um verdadeiro fetiche) e passagens por universidades de prestígio. Mesmo assim, nem de longe essas pessoas são chamadas, não só na frequência, como também na diversidade temática que intelectuais brancas(os) para a construção de um debate público. 

Depois de todo este percurso, o ponto que eu quero deixar evidente é que a branquitude, não conseguindo eliminar completamente a nossa participação dos debates na arena pública, estrangula nossa pluralidade, comprimindo a nossa capacidade intelectual a uma única temática, o racismo. Aliás, você há de convir que a perversidade dessa lógica está, entre outros motivos, no fato de impor a qualquer pessoa negra, independente da formação e área de atuação, a responsabilidade de ser uma “representante de sua raça”. Os exemplos desse tipo de comportamento são muitos, mas te apresento alguns em forma de pergunta (que trazem no fundo uma afirmação): “Como você, que é negro, pensa isso?”; “O que a população negra pensa sobre esse assunto?”; no ambiente acadêmico, coisas como “O que a intelectualidade negra escreve sobre…”. O que fica implícito, caso você não tenha notado, é a afirmação de que nós, pessoas negras, somos responsáveis por toda a coletividade negra. Por fim, antes dessa conversa se encerrar, gostaria de expor um último elemento que considero intrinsecamente ligado ao processo de estrangulamento temático. Me refiro ao movimento de homogeneização racial. Essa forma de caracterização, em parte, já apareceu no parágrafo anterior, mas achei por bem reforçar a ideia. Ela se materializa quando a branquitude considera que todas as pessoas negras são iguais intelectualmente ou parecidas fisicamente (tal qual fazemos com orientais, lembra?). Se o estrangulamento temático nos enclausura em uma única pauta, a homogeneização racial reduz toda a pluralidade das existências negras a uma imagem fantasiosa construída a partir do ideal branco. Aliás, talvez seja interessante, você pessoa branca que me lê, se interrogar no por que dessa verdadeira obsessão na unidade (tóxica), que vai da monorracionalidade¹, que propõe a existência de uma única tradição de pensamento correta, obviamente a branca ocidental; a monocultura, sistema de expropriação e empobrecimento do solo no qual só se planta um alimento por vez; e monoteísmo, especificamente o cristianismo, a tradição que se vê como a “tribo eleita”, a única que herdará o reino dos céus condenando qualquer ser que diverge do script bíblico, em especial sua arque-inimiga, as religiões de matrizes africanas.

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¹Ideia do professor Renato Noguera

Escrito por Davi Akintolá

2 comments

  1. Gostei da questão de que cada pessoa negra é considerada responsável por toda a coletividade. Imagina o peso da cobrança!!!

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