Às sinhás do século 21

Poucos dias atrás, circulou nas redes sociais digitais o vídeo de uma “influenciadora digital”, Adriana Sant’Anna, mulher branca de 30 e poucos anos, atualmente vivendo nos Estados Unidos, no qual esta mostrava o seu desespero com o fato de que naquele País não encontrava uma “empregada” para fazer todo o serviço doméstico por ela. No vídeo, Adriana reclamava: “A galera aqui ganha por hora e eu quero uma pessoa aqui fazendo tudo o tempo todo pra mim”. “Vocês não estão entendendo: eu preciso trabalhar”. Ela mostrava também sua raiva pelo valor cobrado por hora de trabalho doméstico nos Estados Unidos, 25 dólares. Adiante, no vídeo, ela mostrava ainda mais aborrecimento, ao comparar com a realidade brasileira: “a gente no Brasil estava feita, porque uma pessoa estava lá com a gente, faz[ia] tudo. Aqui… ah, pra passar [são] 25 dólares a hora a mais…ah, pra dobrar, 25 dólares, ah, pra poder esticar o braço, mais 25 dólares, então você que tem alguém no Brasil, ajoelhe e agradeça a Jesus, porque aqui nos Estados Unidos é diferente. Eu cheguei aqui e fiquei louca, louca, falei:não, não pode ser’!!!” Mesmo depois do vídeo publicado e de toda a repercussão negativa que teve, Adriana mantinha 4,8 milhões de seguidores. Ela é autora do livro “Nunca Foi Sorte”, no qual narra suas estratégias para ter uma vida “bem-sucedida”.

            O “desabafo” desta influenciadora em pleno século 21 logo lhe rendeu o apelido de “sinhá”, na rápida reação que seu post obteve. A fala dela me fez lembrar um trecho das famosas crônicas de costumes do frei pernambucano Lopes Gama, publicadas no fim do Império, no jornal O Carapuceiro, que circulou entre 1832 e 1847: “Eu conheço mulherzinha que na linguagem econômica é só consumidora; porque come abundantemente, veste-se com luxo, e não se emprega no mais pequeno trabalho. Fica-lhe a quartinha a dez passos de distância, e se tem sede, há de chamar a pretinha para lhe trazer água, porque a senhora está repimpada em um canapé e incomodar-se-ia se se erguesse. O sapato que lhe caia do pé há de ser apanhado pela escrava etc. etc. (…) Aqui finalmente uma não pequena parte da gente livre e da liberta entende que o trabalho só é próprio do escravo, e em consequência despreza-se tudo que é serviço corporal”

            O que impressiona é que, mais de um século depois, a branquitude pouco tenha modificado sua relação com o trabalho doméstico. Adriana Sant’Anna está longe de ser a única mulher da elite branca a demonstrar desprezo pelos serviços manuais da administração de sua casa.  A “espontaneidade” com que ela faz isso é típica da branquitude, conceito que não diz respeito somente a pessoas de pele clara, mas inclui também habitus e performances com as quais os indivíduos deste grupo social comportam-se e expressam-se como se fossem superiores aos “outros”, os quais supõem que deveriam estar a seu serviço – como as trabalhadoras domésticas, exemplarmente. Por isso acreditam que domésticas devem se contentar em receber pouco por seu trabalho.

Nos Estados Unidos há outras formas explícitas de racismo, mas o emprego doméstico é bem característico do tipo de racismo praticado no Brasil, que tem a maior população de domésticas no mundo: quase 7 milhões de pessoas em 2017, a grande maioria delas, mulheres negras, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

            Bom, então já que Adriana dá dicas no seu Instagram aos seus seguidores sobre como utilizar bem essa ferramenta, vou deixar aqui algumas dicas para ela. Siga no Instagram a página @euempregadadoméstica, criada pela rapper, historiadora e autora do livro “Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada” (2019), @pretararaoficial. Nesta página, vai encontrar relatos de humilhações e situações de violências diversas enfrentadas por trabalhadoras em casas de outras sinhás no Brasil. Imprescindível seguir também a página @leandro_assis_ilustra, autor das tirinhas “Confinadas” e “Os Santos” nas quais ele expõe toda a crueldade com que famílias ricas e brancas no Brasil renovam a herança escravocrata no País. Tanto as narrativas de Preta Rara, quanto as tirinhas de Leandro Assis, feitas com Triscila Oliveira, são mesmo para constranger a elite branca do País. Elas são pedagógicas.

            Incrível ainda termos que ser pedagógicos sobre isso em pleno século 21, mas assumir o seu próprio serviço doméstico não é mais do que fazer a sua obrigação. E quando não seja possível assumir você, pague sem se indignar ou reclamar do valor considerado justo pelas pessoas que fazem o serviço, assim como aceite os limites colocados por elas – isso é o mínimo a ser feito para que se possa dispor deste imenso privilégio. Agir de outro modo deveria ser visto como motivo de constrangimento e vergonha, um comportamento incompatível com quem se considera exemplo de sucesso. Afinal, nunca foi sorte, sempre foram as domésticas, em sua maioria negras, que garantiram o sucesso de muitas mulheres brancas, ao livrá-las das tarefas que estas consideravam “indignas” ou “indesejáveis”.

Escrito por Geísa Mattos

3 comments

  1. Reflexão essencial nos dias de hoje, penso (não sei se isso de fato se reflete na realidade) que cada vez mais pessoas com o pensamento semelhante ao dessa “Sinhá” tem se sentido a vontade para reproduzir esses discursos publicamente. O constrangimento pedagógico torna-se uma necessidade urgente.

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