Carta aberta a Papel Craft

Essa carta tem a intenção de ampliar o diálogo a partir da acusação, sem qualquer tipo de evidência, de um roubo de bicicleta, que parte de duas pessoas brancas em direção a um jovem negro, no bairro do Leblon (RJ). Nesse sentido, a minha intenção é abordar 3 pontos, de forma sucinta:

  1. Reparação e uma pedagogia do constrangimento?
  2. A demissão como uma estratégia de nós (cidadãos de bem)  x eles (racistas)
  3. A violência que se esconde atrás da violência evidente

O primeiro ponto está relacionado a uma das consequências do ocorrido, que é a demissão de uma das pessoas brancas, um funcionário da empresa Papel Craft, por pressão popular na página da empresa. Em um primeiro momento, a atitude da Papel Craft de desligamento do contratado pode ser vista como uma reparação, palavra que não temos costume, não só de usar, como de praticar quando o assunto é racismo, visto que, sistematicamente o que vêm a público é um tradicional pedido de desculpas, quando muito. Dessa forma, esse afastamento pode passar uma mensagem à população, em especial a branca, que ela começará a ser responsabilizada pelas atitudes racistas que comete, ou seja, que começa a acontecer uma pedagogia do constrangimento. Com este último termo, quero me referir a todas as medidas (demissões, multas, condenações judiciais, ou quaisquer outros  meios que forem necessários) que possam servir como uma convocação, para as pessoas brancas se implicarem com as relações raciais. Em especial, no caso em questão, um constrangimento pedagógico que ensina não só ao agente (o jovem demitido), mas também a toda a população das suas responsabilidades.

O segundo ponto parte de uma problematização do primeiro. Se a demissão pôde ser vista (e comemorada) como uma reparação e/ou uma pedagogia do constrangimento, talvez ela não devesse ser apresentada apenas dessa maneira. O desligamento do jovem branco ocorreu devido a pressões populares de cobrança, que exigiam uma atitude da empresa. Será que a Papel Craft se manifestaria sem que houvesse essa pressão? Para além disso, uma característica que chama atenção nesse enredo é a circunscrição, a personificação do problema racial, fazendo a seguinte divisão: Nós, cidadãos de bem da empresa (ambiente onde “o racismo não existe”) versus ele (pessoa racista que precisa ser desligada). O que se coloca em questão aqui é que medidas a Papel Craft pretende adotar para além da demissão? Delimitar um problema estrutural (o racismo é estrutural) em um “indivíduo” é uma estratégia paliativa que não enfrenta a raiz do problema. Fazendo uma analogia, temos uma boca necrosando, mas continuamos a tomar dipirona, acreditando que, por aplacar momentaneamente a dor, essa medida um dia resolverá o problema. Quais medidas concretas de combate ao racismo a Papel Craft vai se comprometer em executar para as pessoas que permanecem empregadas?

O terceiro ponto se configura em um aprofundamento do segundo. Quais elementos ficam escondidos atrás da violência que se apresenta? Podemos pensar que a atitude racista que o jovem branco cometeu é como a ponta de um iceberg, ela “esconde” muito mais elementos para além do que exibe. Nesse sentido, afirmo que a violência aparente (o ato racista) acaba por ofuscar a violência que lhe origina, o campo que dá sustentação para que esta ação possa ocorrer. Fazendo uma radiografia panorâmica do nosso país, assistimos diariamente, com direito a espetáculo televisivo, o genocídio negro (e vale lembrar também o indígena) sem que isso cause nenhuma crise ética ou comoção nacional, aplaudimos o delírio meritocrático que, não só transforma os espaços de liderança em um “arraiá da branquitude”, como ainda justifica a ausência de pessoas não brancas com a frase cínica de “não se esforçaram o suficiente”. Contemplamos a sub-representação na mídia, em  novelas as personagens negras sempre recebem papéis subalternizados e de baixa complexidade e pararei por aqui, pois a lista de violências poderia seguir por longas linhas. O cerne da questão, e eu sei que isso pode assustar os navegantes de primeira viagem é, o Brasil é um país antinegro que nega a todo custo olhar pra si mesmo! Esse é o fato que dá sustentação, que cria um solo fértil para que um jovem branco, insisto, sem nenhuma prova aponte para um jovem negro e o acuse de roubar uma bicicleta.

Mas, o que eu como cidadão exijo da Papel Craft? Qual seu quinhão no meio disso tudo? Como foi dito no primeiro ponto, que esta corporação se comprometa em constranger pedagogicamente toda manifestação explícita de racismo de seus funcionários, (inclusive isso é lei) possibilitando com isso a criação de uma cultura de reparação, para que as pessoas brancas sejam responsabilizadas pelos seus racismos. Em segundo lugar, reconhecendo a insuficiência de ações pontuais (que foquem apenas na penalização de um indivíduo), seu compromisso precisa ir na direção de uma (re)educação corporativa para as relações raciais em todos os níveis da organização.Por fim, mas não menos importante, para que os itens anteriores sejam atingidos, faz-se necessário mudar a estrutura da empresa, fazendo-a refletir a realidade social na qual a empresa está inserida, tendo pessoas negras em todos os níveis da organização e não apenas em lugares subalternizados. Não faz sentido em um país com 56% de pessoas negras ter uma liderança que parece a Escandinávia. Não existe antirracismo possível sem mudança concreta nas estruturas sociais.

¹Escolhi preservar os nomes das pessoas para que essa informação não seja o foco da história.

Escrito por Davi Akintolá

4 comments

  1. re-educação e re-estruturação, é pra ontem! obrigada por compartilhar tal análise tão expansiva e didática do caso

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