Dois de Junho: o dia do apagão virtual

2020 foi um ano e tanto. Virou sinônimo de covid-19, pandemia, álcool em gel, máscaras, ansiedade, preocupação, mudanças de planos, aceleração da digitalização… e a lista segue longe!

A demanda virtual aumentou escandalosamente, e junto dela uma necessidade exacerbada de produzir e consumir conteúdo. Quem não lembra de um certo surto das lives, quando a disputa por atenção digital chegou ao ápice? Apesar dos pesares, no meio desse caos todo, alguns assuntos de mais consistência passaram a ganhar relevância. Dentre eles o racismo.

Seria muita ingenuidade, porém, atribuir essa mudança a um repentino despertar (branco) coletivo. Não foi: um homem negro precisou ser friamente assassinado, em público, para que uma revolução encontrasse seu espaço.

Foi impossível ignorar as reações ao homicídio de George Floyd que, em 25 de maio de 2020, teve sua morte registrada e transmitida mundialmente. A revolta causada pela cena chocante desencadeou uma onda de protestos no país de origem, os Estados Unidos – e, infelizmente, se faz importante ressaltar a localidade do fato. Se o mesmo episódio tivesse acontecido em qualquer outro país do mundo, ou mesmo no Brasil, nossas vidas tupiniquins (e brancas) teriam seguido como sempre foram – alienadas e inertes.

A prova disso é que, semanas antes, no Rio de Janeiro, o jovem estudante João Pedro foi baleado e morto “por engano” dentro de casa durante uma operação policial. Ele era negro e morava na periferia. Outro exemplo posterior, de novembro de 2020, foi o assassinato de João Alberto em pleno estacionamento do Carrefour, em Porto Alegre. Mais um homem negro que, desta vez, foi espancado até a morte.

O aniquilamento de pessoas negras é tão comum* que nem noticiadas essas mortes são.

A alienação tipicamente brasileira vem sendo cultivada há séculos para que a supremacia branca se mantenha. Junto dela, se nutre uma baixa autoestima nacional que olha para fora com reverência. Nossa história e nosso presente não escondem: somos um país-colônia.

Mas, naquele dois de junho de dois mil e vinte, algo mudou. Talvez um surto de consciência, talvez um impulso inconsequente. Milhares (milhões?) de brasileiros entraram na onda da #BlackOutTuesday em apoio ao movimento #BlackLivesMatter e aos protestos que acompanhávamos pelas mídias. Celebridades e empresas também entraram na onda. O Instagram viveu um dia de apagão virtual e o antirracismo ganhou os holofotes. Surgiu uma brecha no sistema.

O ato de postar um quadrado preto, naquele dia, significava um gesto contra o racismo. Muitas pessoas brancas se posicionando contra esse sistema que enaltece e beneficia a branquitude. O que significaria essa atividade pública e coletiva? Será que cada pessoa que aderiu ao movimento passou a observar suas atitudes para além do post? O que se pode afirmar, com certeza, é que oportunidades de aprofundamento não faltaram. Cursos, lives, debates… conteúdos informativos estavam sendo criados e compartilhados em escala. Bastava ter curiosidade e vontade de aprender.

Dois de junho mostrou a imensa capacidade das pessoas brancas de se engajarem – ao menos virtualmente – em causas sociais; ao mesmo tempo em que ficou evidenciada uma enorme barreira entre o que se entende intelectualmente e o que pode ser realizado na prática. O fato é que os temas raciais, a partir daquela data, passaram a ganhar mais visibilidade – menos por um lapso de consciência branco, e mais graças à pressão do movimento negro, indígena e dos povos racializados.

Nós, pessoas brancas, operamos em automático dentro do sistema racista, e sair desse padrão requer muito mais do que postar um quadrado preto. Atenção ativa, reflexões coletivas, auto-observação, disposição e coragem – tudo isso em ritmo contínuo e constante – são as atitudes mais favoráveis e construtivas. Além de buscar referências, estudos, trocas… é nosso dever histórico-social-físico-emocional criar meios de materializar nosso desejo antirracista. Como transformar a vontade interna em expressões na vida real? O apagão virtual apontou alguns caminhos; é preciso que os exploremos.

Seguimos!

Obs: se você não sabe muito por onde ir ou como começar, deixo aqui uma sugestão: assista à live sobre o dois de junho com Izabel Accioly (@afroantropologa) com reflexões sobre o um ano do movimento das telas pretas: https://www.instagram.com/tv/CPouXkQnZHy/?utm_source=ig_web_copy_link

*A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295

Escrito por: Rayssa Micalosky Kirinus (@minhabranquitude)

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